12° Congresso Brasileiro de Mastozoologia

Mesas redonda


Resumo: Serviços ecossistêmicos são os benefícios diretos e indiretos que os ecossistemas oferecem à humanidade e a outros seres vivos. No contexto da mastofauna, esses serviços incluem, por exemplo, a polinização e dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração de ecossistemas florestais e manutenção da biodiversidade; o controle de pragas, reduzindo a necessidade de pesticidas e outras intervenções agrícolas invasivas; a ciclagem de nutrientes, melhorando a fertilidade do solo; os serviços médico-científicos, no desenvolvimento de fármacos e atrativos turístico-culturais, gerando receitas milionárias através do turismo de observação de fauna e economia circular associada. Além disso, há outras possibilidades vindouras como o mercado de créditos de biodiversidade atrelado às práticas de Environmental, Social & Governance (ESG) de grandes corporações. Qual o valor econômico associado aos mais de 700 mamíferos existentes no Brasil? O quanto estamos preparados para realizar esses cálculos? O quanto a Academia pode contribuir para esses avanços? Qual o papel da iniciativa privada nesse processo? Quais as oportunidades científicas e financeiras para os mastozoólogos brasileiros? Essas são algumas das perguntas que serão respondidas nesse simpósio, que traz quatro pesquisadores com abordagens distintas e complementares sobre o tema.
 

"Serviços ecossistêmicos prestados pelos mamíferos brasileiros"
Palestrante: Mariana M. Vale (UFRJ) 
Resumo: Nesta palestra, será apresentado o estudo que quantifica e mapeia os processos e serviços ecossistêmicos prestados pelos mamíferos brasileiros a partir de suas características funcionais, interações tróficas e pela sobreposição de seus mapas de distribuição. São apresentados os 11 serviços ecossistêmicos identificados para 557 espécies terrestres e marinhas, a distribuição espacial desses serviços nos biomas brasileiros e uma estimativa da perda da capacidade de prestação desses serviços nas espécies em risco de extinção.

“Plantando carbono: o papel dos mamíferos frugívoros no estoque de carbono”
Palestrante: Mauro Galetti (Unesp - Rio Claro)
Resumo: Noventa por cento das árvores tropicais têm suas sementes dispersadas por animais. Por sua vez, são os animais frugívoros que determinam a distribuição e futura abundância de plantas no tempo e no espaço. Nessa palestra, apresenta-se um estudo de caso do valor econômico gerado por primatas e por uma ave no estoque de carbono de uma única árvore da Mata Atlântica.

"Muito além do mercado de carbono: os desafios e perspectivas de programas de créditos de biodiversidade "
Palestrante: Deborah Faria (UESC - LEAC)
Resumo: O emergente mercado de créditos de biodiversidade, estimado em bilhões de dólares, apresenta-se como um instrumento promissor para manter e restaurar a integridade de sistemas naturais. Nesta palestra, serão discutidos alguns dos muitos desafios e oportunidades deste mercado, incluindo a apresentação de protocolos com distintas métricas, formas de cálculos de creditação e distintos fundos, ilustrando uma experiência na implementação de um destes projetos no sul da Bahia.

"Mamíferos como foco do ESG de grandes corporações: as interfaces entre Academia e iniciativa privada abrindo novos caminhos para financiar Conservação"
Palestrante e coordenador: Hugo Fernandes-Ferreira (UECE / Seteg)
Resumo: O mercado de créditos de biodiversidade representa uma potencial virada de chave na bioeconomia mundial. No país com uma das maiores diversidades de mamíferos do globo, a Academia precisa estar ativa nas pesquisas que estão atribuindo riqueza econômica à riqueza faunística. É preciso preencher a imensa lacuna que ainda a separa das demandas de mercado, cada vez mais regulado pelas estratégias de Environmental, Social & Governance (ESG). Nessa palestra, serão discutidos quais os novos caminhos potenciais para o financiamento de projetos de pesquisa e conservação no Brasil.

 
Resumo: Montanhas abrigam mais de 85% das espécies de vertebrados do planeta, embora ocupem apenas cerca de 25% de toda a área terrestre. Além de proverem serviços ecológicos essenciais às sociedades humanas, o seu papel na diversificação biológica tem sido de grande interesse para a biogeografia e conservação da biodiversidade. Alexander von Humboldt revolucionou estas disciplinas ao documentar a vasta diversidade biológica e geológica dos Andes enquanto viajava pelo norte da América do Sul durante o início do século XIX. Desde então, as montanhas têm sido reconhecidas como barreiras de dispersão para espécies de terras baixas ou como centros de diversificação in situ, dada a sua complexidade topográfica e o seu amplo gradiente ecológico. A ascensão das montanhas traz heterogeneidade para áreas geológica e ecologicamente homogêneas, ao promover chuvas orográficas, maior complexidade espacial e amplos gradientes ambientais. As cordilheiras montanhosas nos trópicos, por exemplo, incluem desde florestas tropicais úmidas e densas, ao longo das suas encostas, até campos de altitude, páramos, e desertos em seus altiplanos. Esta incrível variação de habitats e climas oferece inúmeras oportunidades de adaptação e especialização ecológica dentro de zonas altitudinais distintas, gerando ampla variação espacial nas comunidades encontradas ao longo de uma cordilheira. A complexa topografia das montanhas também produz distribuições descontínuas de habitats restritos a uma determinada zona altitudinal ao longo de diferentes cadeias montanhosas, formando um arquipélago de habitats naturalmente isolados por vales e escarpas. A interação entre esta configuração espacial e a ciclicidade climática ao longo dos últimos ~2,6 milhões de anos gerou episódios intermitentes de conexão e isolamento entre populações restritas a diferentes picos ou altiplanos. À medida que os habitats e as zonas climáticas mudavam sua distribuição altitudinal, após oscilações entre climas mais quentes (interglaciais) e mais frios (glaciais), as biotas de diferentes cadeias montanhosas divergiam e se reconectavam múltiplas vezes. Esta dinâmica geoclimática provavelmente promoveu a diversificação entre linhagens alopátricas de alta altitude no passado geológico recente, tornando as montanhas importantes “species pumps” no passado recente. Nesta mesa redonda reuniremos quatro pesquisadores de três países (Argentina, Brasil e EUA) para apresentar a diversidade de mamíferos ainda desconhecida de alguns dos principais gigantes montanhosos da América do Sul, bem como para discutir os processos evolutivos responsáveis pela diversificação de grupos megadiversos de mamíferos nestes sistemas, e os métodos comparativos utilizados para estudar a história destes grupos. Serão apresentados resultados recentes de expedições à Serra do Imeri, que integra os antigos e misteriosos Tepuis amazônicos. Discutiremos também como as serras do Mar e da Mantiqueira contribuíram para a diversificação de roedores na Mata Atlântica, transformando este em um dos biomas mais ricos em mamíferos endêmicos e ameaçados do mundo. Os avanços recentes no conhecimento sobre os processos de diversificação de mamíferos na maior e mais imponente cordilheira da América do Sul, os Andes, também serão apresentados em detalhe. Será uma viagem pelas maiores e mais belas montanhas da América do Sul, investigando as origens dos mamíferos singulares que habitam estes gigantes e traçando padrões e processos gerais e únicos a cada uma delas.
 

"Gigantes montanhosos do leste do Brasil e a diversificação de roedores na Mata Atlântica "
Palestrante e coordenador: Pablo Rodrigues Gonçalves (NUPEM/UFRJ)
Resumo: As montanhas agregam uma biodiversidade desproporcionalmente elevada em todo o mundo e provavelmente atuaram diversas vezes como importantes centros de diversificação em diversas regiões terrestres. No entanto, o papel das serras do Mar e da Mantiqueira na evolução de grupos megadiversos de mamíferos, como os roedores sigmodontinos, permanece pouco conhecido. Contudo, avanços substanciais no conhecimento taxonômico e biogeográfico deste grupo têm possibilitado análises integrativas sobre a sua cronologia de diversificação, limites entre espécies, e influência de fatores ambientais na diferenciação fenotípica entre linhagens restritas à zonas altimontanas. Nesta palestra, discutiremos as origens geográficas, antiguidade e processos evolutivos envolvidos na formação de linhagens endêmicas altimontanos na Mata Atlântica brasileira. Ao integrar estudos de filogenômica, morfologia comparada e biogeografia de gêneros de roedores contendo espécies endêmicas às zonas altimontanas, avaliaremos a adequação dos diferentes modelos formulados para explicar como como tantas espécies endêmicas se originaram em sistemas montanhosos.

"Ilhas na Amazônia: padrões de diversidade na Serra do Imeri"
Palestrante: Alexandre R. Percequillo (ESALQ/USP)
Resumo: As montanhas da Amazônia brasileira são pouco conhecidas no que diz respeito à sua diversidade biológica, o que reflete no parco entendimento da evolução dessa biota. Essas montanhas fazem parte do Pantepui, uma formação importante rochosa do escudo das Guianas, que se estende pelo sudoeste da Guyana, sudeste da Venezuela e norte do Brasil. Os poucos estudos sobre pequenos mamíferos sugerem que um táxon endêmico do Monte Roraima está mais relacionado a um gênero do Cerrado brasileiro. Já estudos com anfíbios mostram que existem linhagens endêmicas dessas montanhas que compartilham uma história evolutiva e biogeográfica com elementos da Floresta Atlântica. Recentemente amostragens foram conduzidas em duas montanhas isoladas na Serra do Imeri, complexo de montanhas na divisa do Brasil e Venezuela, no estado do Amazonas: Pico da Neblina, em outubro de 2017 e Pico do Imeri, em novembro de 2022. Estas áreas estão inseridas no Parque Nacional do Pico da Neblina e na Terra Indígena Yanomami. Em ambos os sítios foram colecionados quatro táxons de pequenos mamíferos, sendo três roedores sigmodontíneos e um marsupial. Os resultados morfológicos preliminares evidenciam similaridade morfológica qualitativa nestes morfotipos entre as amostras das duas montanhas; os dados genéticos analisados até o momento mostram uma notável diversidade genética nos marcadores mitocondriais estudados para as espécies de roedores. Estes resultados indicam um elevado nível de isolamento entre as populações que habitam montanhas: se isto representa diferenciação em nível de população ou em nível de espécie ainda necessita ser estabelecido com abordagens genômicas e integrativas.

"Patrones y procesos de diversificación en roedores de zonas andinas y áridas de Argentina. Estudios de casos."
Palestrante: Agustina A. Ojeda (LFTIE_IADIZA CCT CONICET Mendoza, Argentina)
Resumo: La Cordillera de los Andes es una región de gran riqueza de especies de pequeños mamíferos. Desde su levantamiento actuó como barrera climática y favoreció la formación de nuevos ambientes y ecosistemas áridos (ej. Altiplano, Puna, Desierto del Monte) con una amplia variedad de relieves topográficos, climas y hábitats. En esta presentación discuto algunos estudios de casos en roedores sudamericanos (sigmodontinos y caviomorfos) en los cuales se han integrado distintas herramientas (moleculares, cromosómicas, morfológicas y ecológicas) para indagar sobre patrones y procesos involucrados en la distribución y diversificación de distintos linajes en las tierras áridas de cordillera andina y llanura. Entre los resultados destaco patrones de divergencia genética, molecular y morfológicos que sugieren la presencia de complejos de especies crípticas, con poblaciones locales que han estado divergiendo en relativo aislamiento durante largos períodos de tiempo, mientras que otras sugieren un evento de especiación reciente. Gran parte de la diversidad observada podría explicarse como una respuesta a la historia de sitio. Esto es, al impacto de los principales eventos (ej. glaciaciones, actividad volcánica y orogenia andina) sobre la distribución, abundancias, diferenciación morfológica, genética y la estructura geográfica de las poblaciones de pequeños mamíferos de las tierras áridas andinas y de llanura.

"Cradles, species attractors, and pumps: patterns and processes of mammalian evolution on the Andes "
Palestrante: Jorge Salazar-Bravo (Texas Tech University, EUA)
Resumo: As cadeias montanhosas, e os Andes em particular, abrigam uma biodiversidade excepcionalmente alta, que agora está ameaçada pelas rápidas mudanças ambientais. Entretanto, apesar de décadas de esforços, a disponibilidade limitada de dados e ferramentas analíticas impediu uma caracterização robusta e verdadeiramente local dos gradientes de biodiversidade e de suas origens evolutivas. Isso dificultou uma compreensão geral dos processos envolvidos na formação e manutenção das comunidades andinas. Com base em novos dados de distribuição, genéticos e genômicos de grandes grupos de mamíferos andinos, avalio a relação entre os processos geológicos e as respostas biológicas por meio da dinâmica de diversificação, da história biogeográfica e da evolução da variedade de vários desses grupos. As análises biogeográficas, aliadas a filogenias bem resolvidas em geral, indicam (a) padrões geográficos e temporais claros de diversificação e (b) processos exclusivos no Altiplano e na Puna dos Andes centrais. O estudo destaca a importância de fatores ambientais e bióticos na formação da biodiversidade de mamíferos em ecossistemas de montanha.

Resumo: Os mamíferos aquáticos amazônicos são altamente relevantes para a integridade dos ecossistemas do qual fazem parte. No entanto, suas populações enfrentam diversas ameaças, entre elas, a captura e morte acidental em redes de pesca, o abate como forma de retaliação aos conflitos com pescadores, a caça, seja para subsistência alimentar (em especial o peixe-boi-amazônico) seja para comercialização de subprodutos associados a crenças populares e ao uso como isca para pesca comercial (principalmente o boto-cor-de-rosa), a poluição e a degradação de seus habitat devido à expansão populacional humana, e o desenvolvimento de atividades turísticas desordenadas. Esta mesa redonda tem por objetivo apresentar e provocar discussões sobre como atividades de pesquisa, envolvimento comunitário e educação ambiental vêm sendo utilizadas para reduzir as ameaças e melhorar a conservação dos mamíferos aquáticos amazônicos. Para isso, a mesa conta com palestrantes vinculados a instituições acadêmicas, governamentais e de pesquisa. Espera-se com isso oferecer subsídios para uma reflexão sobre o uso de diferentes abordagens e ferramentas que contribuem para a construção de políticas públicas e estratégias de gestão voltadas para a melhoria do status de conservação dos mamíferos aquáticos amazônicos.
 

"Pesquisa, capacitação e sensibilização para a conservação dos mamíferos aquáticos amazônicos "
Palestrante e coordenador: Marcelo Derzi Vidal
Resumo: O Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos Amazônicos incorporou atividades chaves para (a) quantificar e qualificar os impactos das práticas turísticas nas espécies, (b) diminuir os conflitos com as espécies foco, e (c) promover a capacitação e a sensibilização de atores sociais visando a conservação dos mamíferos aquáticos amazônicos. Considerando os diversos desafios relacionados ao modelo vigente de turismo com botos (proliferação de empreendimentos nos estados do AM e PA, escassez de informações que indiquem os impactos positivos e negativos, oferta alimentar aos animais, descumprimento de normas relacionadas), bem como a necessidade de diminuição das interações negativas (retaliações a prejuízos na pesca, abate para alimentação ou para o uso em atividades pesqueiras) entre populações humanas e os mamíferos aquáticos amazônicos, esta palestra trará um panorama das atividades realizadas pelo ICMBio e parceiros que vêm contribuindo para (i) o desenvolvimento de um turismo de baixo impacto com esses animais, (ii) a sensibilização de diferentes atores sociais, e (iii) a conservação das espécies integrantes do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos Amazônicos.

"Animais fantásticos e com quem habitam: desvendando a ecologia dos mamíferos aquáticos através do conhecimento ecológico local dos pescadores"
Palestrante: Paula Evelyn Rubira Pereyra
Resumo: Pescadores artesanais mantêm diversas interações com os mamíferos aquáticos que são de grande relevância para a conservação. Essas interações incluem observação destes animais no ambiente, captura acidental em redes de pesca, cooperação nas atividades pesqueiras e uso dessas espécies como alimento. Apesar da importância econômica e ecológica dos mamíferos aquáticos na Amazônia, há uma carência de informações devido à falta de investimentos e à dificuldade de acesso a áreas remotas. Nesse contexto, o conhecimento ecológico local dos pescadores emerge como uma fonte valiosa e eficaz de informações sobre os comportamentos e características ecológicas das espécies de mamíferos aquáticos. O propósito desta palestra é destacar o potencial da utilização de entrevistas com pescadores para aprofundar a compreensão acerca da dieta, variações na abundância e conservação de mamíferos aquáticos nos rios Tapajós, Tocantins e Trombetas, no estado do Pará. Estes três rios, considerados de águas claras, possuem diferentes históricos de impactos ambientais e preservação de sua bacia hidrográfica. A pesquisa inclui mamíferos aquáticos, como o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), o boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis), o boto-tucuxi (Sotalia fluviatilis), e o peixe-boi (Trichechus inunguis), e semi-aquáticos, como a ariranha (Pteronura brasiliensis) e a lontra (Lontra longicaudis).

"Estudar os mamíferos aquáticos da Costa Norte: um desafio de proporções amazônicas"
Palestrante: Renata Emin-Lima
Resumo: A Costa Norte do Brasil, onde se encontram as reentrâncias paraenses, está contida na maior faixa contínua de manguezais do mundo. E é também, no meio dessas reentrâncias, onde vivem os carismáticos mamíferos aquáticos. Entender a distribuição geográfica de botos, peixes-bois e baleias nesse ambiente e, especialmente, traçar rotas para a conservação destes animais é um desafio amazônico. Os mamíferos aquáticos, sobretudo aqueles que habitam regiões costeiras, interagem muito com as populações humanas que ali vivem. Essas interações são das mais diversas e podem ser amigáveis ou conflituosas, seja no uso da medicina natural ou na presença de algumas espécies no imaginário popular, como é o caso dos botos e peixes-boi. E estratégias de conservação da biodiversidade precisam levar em consideração este fato. Esta apresentação abordará as exitosas estratégias utilizadas pelo Instituto Bicho D’água, que formou uma rede de colaboradores nas comunidades costeiras ao longo dos anos. São pescadores(as) e moradores(as) das beiras de praia que se identificaram com a missão de conhecer e conservar a biodiversidade costeira. O trabalho em colaboração tem gerado forte engajamento das comunidades na elaboração de estratégias muito mais efetivas para conservação da biodiversidade por levarem em consideração um componente importantíssimo no processo: o ser humano.

"Conservação do boto-do-Araguaia em Mocajuba: integração de conhecimento local e científico na Educação Ambiental "
Palestrante: Layane Joyce Rosa Maia
Resumo: Na região de Mocajuba, Pará, existe uma complexa relação entre as comunidades ribeirinhas e uma espécie vulnerável, o boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis). Esta palestra demonstra como que, por meio da educação ambiental, abordamos os desafios apontados pelas comunidades para a conservação do boto-do-Araguaia, como o uso tradicional de órgãos do animal para fins medicinais e religiosos, conflitos com a pesca e degradação do ambiente aquático. Esta abordagem integra conhecimento local e científico para promover a sensibilização de atores para a conservação da espécie. Esforços coordenados entre órgãos ambientais, instituições acadêmicas e o governo municipal têm sido empregados, resultando em intervenções nas escolas e nas comunidades. Um e-book foi desenvolvido para professores de ciências, utilizando o boto como protagonista do ensino, juntamente com ações de educação ambiental destinadas aos servidores das secretarias de Educação e de Meio Ambiente, bem como aos estudantes da rede pública. Ao fomentar o diálogo entre diversos atores e valorizar o conhecimento tradicional, buscamos superar desafios ambientais e econômicos, assegurando um futuro sustentável para o boto-do-Araguaia e para as comunidades locais.

Resumo: Com a atual crise da biodiversidade, é alarmante a projeção do declínio populacional de espécies que já são consideradas ameaçadas de extinção. Neste sentido, o Estado de São Paulo apresenta casos de sucesso em estabelecer uma prática de um dos monitoramentos mais longos e estratégias de conservação da onça-pintada na Mata-Atlântica, o tratamento e monitoramento de lobos-guará acometidos por sarna sarcóptica no Cerrado, os resultados do Programa Monitora-Bio, com mais de 118 mil registros de vertebrados terrestres em 26 unidades de conservação, bem como a importância de técnicas inovadoras para monitoramento de agentes infecciosos de mamíferos no tema da saúde única. Essa mesa redonda é para pesquisadores, criadores e implementadores de políticas públicas dedicadas à conservação da mastofauna.
 

"Como o Monitoramento de longo prazo no continuun ecológico de Paranapiacaba está protegendo as onças pintadas na Mata-Atlântica "
Palestrante e coordenadora: Beatriz Biesiegel (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)
Resumo: As onças pintadas (Panthera onca), criticamente em perigo de extinção na Mata Atlântica, sobrevivem nesse bioma em densidades populacionais tipicamente baixas, existindo apenas três áreas em que a espécie tem probabilidade de sobrevivência a longo prazo nesse bioma, as JCUs (ou “Jaguar Conservation Units”) da Serra do Mar, do Alto Paraná-Paranapanema e do Corredor Verde. O Contínuo de Paranapiacaba, no sudoeste do estado de São Paulo, que inclui os Parques Estaduais Carlos Botelho, Intervales, Nascentes do Paranapanema, Petar, Estação Ecológica de Xitué, trechos da APA dos Quilombos do Médio Ribeira e grandes florestas particulares contíguas a essas UCs, abriga grande parte das onças pintadas da JCU Serra do Mar. O monitoramento a longo prazo dessa população aponta para uma redução significativa na última década e sugere a perda de qualidade do habitat, caça e aumento da malha viária e intensificação do tráfego, como alguns dos fatores responsáveis. Esse monitoramento também evidencia variações populacionais extremas em outros mamíferos do Contínuo, apontando para a fragilidade da área protegida como um todo, e mudanças em comportamentos e uso do espaço pelas onças pintadas, além de se constituir numa poderosa ferramenta de interlocução com a sociedade.

"Do Plano de Ação Nacional ao campo: Tratamento de lobos-guarás acometidos por sarna sarcóptica no Cerrado Paulista"
Palestrante: Fernanda Abra (ViaFauna Estudos Ambientais/Center for Conservation and Sustainability/Smithsonian Institution)
Resumo: O aumento da fragmentação dos ambientes naturais e o consequente aumento do contato entre animais silvestres e domésticos contribui para a ocorrência e circulação de agentes infecciosos e parasitários. Esta interação vem sendo considerada um importante fator de impacto sobre a conservação de populações de espécies de vida livre. A sarna sarcóptica, por exemplo, doença causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, tem acometido indivíduos de lobos-guarás no Estado de São Paulo. Esse é um impacto apontado como estratégico de ser combatido no Plano de Ação Nacional de canídeos ameaçados do ICMBio. Ao todo, sete lobos-guarás já foram capturados e tratados e estão sendo monitorados na Estação Ecológica de Itirapina, um dos últimos fragmentos florestais de cerrado do Estado de São Paulo. Exames completos para traçar perfis de saúde e genético dessa população estão sendo desenvolvidos. Esse modelo de manejo de fauna está sendo proposto para ser replicado em outras unidades de conservação de ocorrência da espécie para salvaguardar populações em risco.

"A importância da coleta de material biológico para as pesquisas com mamíferos silvestres e tomada de decisões fundamentadas. "
Palestrante: Hebert Soares (Universidade Santo Amaro, UNISA)
Resumo: A fauna silvestre representa uma importante fonte de informações, sendo possível, por meio da avaliação da saúde e do estado nutricional desses animais, inferir sobre a capacidade de suporte e qualidade ambiental, contribuindo assim para a sobrevivência das espécies. A pesquisa de agentes infecciosos é uma das estratégias que pode demonstrar os desequilíbrios ambientais e evidenciar estreito contato com humanos e espécies domésticas. Diversos tipos de material biológico como amostras de tecidos, sangue, swabs de mucosas, fezes e ectoparasitas, podem ser coletados para utilização em estudos epidemiológicos, genética de populações e manejo de mamíferos ameaçados. A padronização dos procedimentos para a realização de coleta, acondicionamento, armazenamento e transporte de amostras biológicas é essencial para a qualidade dos resultados dos exames laboratoriais. Além do material previsto, para atender as necessidades do projeto principal, outras amostras biológicas podem ser colhidas e compartilhadas com parceiros de pesquisa para ampliar os conhecimentos e somar em diferentes linhas de pesquisa sobre as espécies silvestres. A detecção molecular de agentes infecciosos da Ordem Piroplasmida, da Família Anaplasmataceae e dos gêneros Ehrlichia, Hepatozoon e Rickettsia foi realizada a partir de amostras de tecidos e ectoparasitas de mamíferos silvestres atropelados em rodovias dos estados do Mato Grosso, Pará e São Paulo. Além disso, as amostras serão utilizadas para pesquisa de agentes virais como Coronavírus, Herpesvírus, Poxvírus e vírus da raiva. É importante ressaltar que os agentes infecciosos pesquisados podem apresentar potencial zoonótico, representando risco tanto para a população humana quanto para animais domésticos e silvestres.

"Programa MonitoraBioSP – Programa de monitoramento de biodiversidade em unidades de conservação paulistas"
Palestrante: Andréa S. Pires (Fundação Florestal/IPA/SEMIL)
Resumo: O Programa de Monitoramento da Biodiversidade abrange, ao todo, mais de 845 mil hectares em 36 Unidades de Conservação. O programa executa o monitoramento anual de mamíferos terrestres e primatas por meio de armadilhas fotográficas. Esses esforços envolvem dezenas de áreas de conservação, capacitando centenas de pessoas e fornecendo uma plataforma georreferenciada online para tomada de decisões e modelos preditivos de espécies ameaçadas. Esse é um dos maiores banco de dados sobre a fauna em unidades de conservação e está sendo alimentado, com auxílio tecnologia de informação e inteligência artificial, disponibilizado para gestores, pesquisadores e dirigentes institucionais de forma a orientar a tomada de decisão informada. Um resultado concreto foi a produção do Guia de Identificação de onças-pintadas do Estado de São Paulo, a partir da união de esforços de dois projetos de monitoramento: MonitoraBioSP e Onças do Contínuo de Paranapiacaba, que identificou 51 onças-pintadas desde 2006 e trouxe a história de cada uma delas para uma publicação inédita. Ações pontuais de manejo foram direcionadas, como no caso dos lobos-guarás acometidos por sarna sarcóptica em uma Unidade de Conservação do Centro-oeste paulista. Esse é um modelo de monitoramento e gestão de biodiversidade que pode ser replicado em outros órgãos ambientais do Brasil.

Resumo: Apesar de ser apontada como uma ameaça à extinção de espécies, a substituição de áreas naturais por agroecossistemas e seu impacto em mamíferos ainda carece de informações básicas. Metodologias de avaliação de riscos e o monitoramento de populações de mamíferos vivendo nessas paisagens ainda estão em elaboração. Após a publicação do manual de avaliação de risco de agrotóxicos para abelhas, o IBAMA tem realizado estudos técnicos para a elaboração de um documento análogo para mamíferos e aves. Apresentamos aqui primeiramente a metodologia de avaliação de risco de agrotóxicos e as principais lacunas de contribuição de pesquisa. Em seguida, analisamos o panorama atual da presença de mamíferos em agroecossistemas brasileiros e um protocolo para registro de ocorrências para informar uma análise de risco. Também discutimos um estudo de caso sobre ecologia espacial e causas de mortalidade de carnívoros em agroecossistemas, informações capazes de alimentar as variáveis necessárias para o modelo trófico de bioacumulação. Finalmente, mostramos metodologias de quantificação de agrotóxicos em tecidos animais e variáveis de saúde que podem ser utilizadas como métricas em nível tecidual, individual, populacional e da comunidade. Ainda, enfatizamos a necessidade de estudos em nível de escala local que possam esclarecer tendências indicadas em nível de paisagem e tipos de agroecossistemas.
 

"Registro de agrotóxicos no Brasil: avaliação ambiental para mamíferos e principais lacunas de conhecimento"
Palestrante: Carla Mariane Costa Pozzi (Diretoria de Qualidade Ambiental, IBAMA)
Resumo: O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é o órgão federal responsável pela avaliação ambiental de agrotóxicos no Brasil. Isso significa que, para que um agrotóxico possa ser registrado e utilizado em campo, o produto deve ser submetido ao processo de avaliação ambiental realizado pelo Ibama, o qual engloba a avaliação de perigo, que é a caracterização da toxicidade da substância, bem como a avaliação de risco, que é o cálculo da probabilidade de que um efeito biológico adverso possa ocorrer como resultado da exposição do animal ao agente estressor. A avaliação de perigo/toxicidade aos mamíferos já é bem estabelecida no Ibama: são analisados uma série de estudos de laboratório, normalmente conduzidos com ratos, para a determinação da toxicidade oral aguda, crônica e reprodutiva. A avaliação de risco, por outro lado, é um processo mais complexo e que ainda não é aplicado de forma rotineira, envolvendo a criação de cenários de exposição dos animais em campo, para os quais são necessários dados brasileiros, como, por exemplo, resíduos de agrotóxicos nos alimentos e relatórios sobre a presença de mamíferos na paisagem agrícola. É nessa construção de cenários, dentre outras linhas, que o Ibama vem trabalhando com vistas ao estabelecimento de uma metodologia de avaliação de risco de agrotóxicos robusta e que seja protetiva dos mamíferos que frequentam a paisagem agrícola brasileira. Há, no entanto, algumas lacunas de conhecimento que precisam ser preenchidas para que o Ibama alcance esse objetivo, dentre as quais dados específicos e sistematizados da utilização dos cultivos agrícolas pelos animais. Nesse ponto, é de fundamental importância a participação da academia, principalmente na geração de estudos brasileiros que possam ser utilizados pelo Ibama no processo regulatório.

"Panorama da ocorrência de mamíferos em agroecossistemas no Brasil"
Palestrante e coordenador: Pedro Cordeiro Estrela (Universidade Federal da Paraíba)
Resumo: A contribuição de dados de pesquisa em mastozoologia é indispensável para a criação de cenários de exposição de mamíferos a agrotóxicos em ambientes agrícolas. São necessárias i) informações sobre a ocorrência de espécies nos diferentes cultivos, ii) a espacialização da ocorrência no agroecossistema em lavoura, borda ou área adjacente iii) informações sobre as espécies cultivadas e sua fenologia iv) assim como informações sobre as características biológicas dos mamíferos. Apresentamos os resultados de uma revisão sistemática de 200 artigos que indicam quais espécies de mamíferos são as mais registradas nos agroecossistemas brasileiros e quais regiões do Brasil concentram estes estudos. A estratificação espacial destas espécies é analisada nos agroecossistemas estudados. Classificamos os cultivos nos diferentes tipos que englobam, pastagens, plantações de árvores, culturas perenes e anuais para identificar os cultivos onde os mamíferos são mais registrados assim como cultivos que carecem de estudos. Finalmente analisamos associações de espécies e traços biológicos com os tipos de agroecossistemas estudados.

"Quão arriscado é viver entre nós: riscos e impactos negativos para carnívoros em paisagens modificadas do Brasil Central"
Palestrante: Frederico Gemesio Lemos (Universidade Federal de Catalão (UFCAT) e Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado (PCMC)
Resumo: O aumento e intensidade das modificações ambientais somado ao conflito com humanos e seus rebanhos estão entre os principais desafios à conservação das espécies. Para avaliar este efeito, por duas décadas acessamos a ecologia espacial e trófica, a saúde e a percepção das pessoas sobre carnívoros vivendo em paisagens não protegidas do Brasil Central. Coletamos informações sobre atropelamentos, fezes, registros fotográficos, questionários, dados biométricos, epidemiológicos e de movimentação de um felídeo de grande porte (onça-parda [Puma concolor]), três canídeos (raposa-do-campo [Lycalopex vetulus], cachorro-do-mato [Cerdocyon thous] e lobo-guará [Chrysocyon brachyurus]), um mefitídeo (jaritataca [Conepatus amazonicus]) e cães domésticos (Canis lupus familiaris). A depender do tipo de cultivo e manejo empregado, a disponibilidade de presas/habitats pode ser um determinante da presença de carnívoros em agroecossistemas. No geral, agroecossistemas têm menor produtividade e a dieta destas espécies é menos diversa nos habitats amostrados, representando um desafio à sua sobrevivência, especialmente quando ocorre consumo de animais domésticos, mesmo em pequenas proporções. Onças-pardas selecionam vegetação florestal nativa (concentradas em APPs/RLs), entretanto, esses ambientes aparentemente preservados representam diversos riscos, uma vez que são locais também utilizados por pessoas e animais domésticos, e podem estar expostos por deriva de agrotóxicos. Resultados também apontam que os três canídeos e jaritatacas usam intensamente pastagens exóticas, ambientes que podem representar armadilhas ecológicas para estas espécies. As principais causas de morte de canídeos são decorrentes de atropelamentos, ataques de cães domésticos, e abates retaliatórios. Considerando estas causas, a raposa-do-campo apresenta uma alarmante probabilidade de extinção local de 80%.

"Pequenos mamíferos como biomonitores: Métricas de diversidade e saúde em agroecossistemas"
Palestrante: Érica Fernanda G. Gomes de Sá (Universidade Federal da Paraíba)
Resumo: Pequenos mamíferos são encontrados na borda ou dentro das plantações onde integram a exposição espacial e temporal aos agrotóxicos. A baixa longevidade e pequena área de vida dos pequenos mamíferos fazem destes bons indicadores para avaliar as rotas de exposição locais dos agrotóxicos. Também servem como modelos interessantes para medir bioacumulação, pois ocupam posições-chave nas redes tróficas desempenhando um papel funcional importante no ecossistema. Simultaneamente, a utilização de métricas multi-diversidade a nível de comunidade e indicadores de saúde a nível de população e indivíduo compõem ferramentas poderosas para avaliação do impacto dos agroecossistemas. No nível individual, apresentamos um protocolo multiresíduo inédito, no Brasil, para quantificação de agrotóxicos em matriz biológica. Quantificamos agrotóxicos em fígado e rins dos roedores presentes em um sistema de arroz-pantanal na área in crop, borda da plantação e reserva legal (off crop). Também realizamos análises de estresse oxidativo e construímos uma matriz histopatológica para fornecer um proxy de saúde desses animais. Em um segundo nível, populacional, a abundância de espécies e estrutura da população, juntamente com os dados de saúde foram analisados para obter uma visão ampla da viabilidade populacional. Em um último nível, com uma perspectiva de comunidade na paisagem agrícola, utilizamos métricas de diversidade espacial, taxonômica, funcional e evolutiva para medir os efeitos espaciais e temporais do agroecossistema na diversidade de espécies. Em conjunto, essas abordagens fornecem um protocolo exequível para avaliar os impactos da agricultura na biodiversidade, permitindo estratégias de gestão mais informadas e direcionadas.

Resumo: Em muitos estudos de biologia, a detecção imperfeita frequentemente é negligenciada, levando a uma suposição errônea de que a ausência de detecção equivale à ausência real. Esse viés compromete as estimativas dos parâmetros de interesse, resultando em descobertas equivocadas sobre os fatores que afetam as espécies biológicas. Na nossa mesa redonda, destacaremos a relevância dos modelos de ocupação, enfocando sua flexibilidade e aplicabilidade em diversos questionamentos, cenários e contextos na mastozoologia. Começaremos com uma breve introdução aos modelos de ocupação, destacando como sua incorporação nos estudos mastozoológicos é essencial. Abordaremos as potenciais conclusões enganosas que podem surgir quando essas abordagens não são consideradas. Em seguida, exploraremos estudos de caso que aplicaram esses modelos em diferentes contextos, como a avaliação dos fatores que influenciam a abundância de espécies de Callithrix spp. na Mata Atlântica, a análise do impacto do turismo em unidades de conservação no Brasil, e a avaliação da distribuição de cachorros domésticos em áreas de conservação da Mata Atlântica. Ao reunir essas perspectivas, nossa mesa redonda busca proporcionar uma visão abrangente sobre a importância crítica de incorporar a detecção imperfeita por meio de modelos de ocupação na ecologia mastozoológica. Nosso objetivo é estimular discussões produtivas e incentivar colaborações futuras, visando aprimorar as práticas de pesquisa e conservação em nosso campo.
 

"A amostragem além da detecção perfeita"
Palestrante e coordenador: Rodrigo Lima Massara
Resumo: Nesta fala será realizada uma introdução sucinta sobre os modelos de ocupação, ressaltando a importância da condução adequada de coletas de dados para a aplicação eficaz dessa abordagem nos estudos mastozoológicos. A flexibilidade inerente desses modelos será enfatizada, com a ilustração de seu potencial através de exemplos práticos em diversos contextos, cenários e objetivos de pesquisa. A ênfase será direcionada para demonstrar como a adoção criteriosa dessa ferramenta pode enriquecer a compreensão da ecologia mastozoológica, proporcionando insights valiosos aos pesquisadores e contribuindo para avanços importantes em nosso entendimento sobre a ecologia e conservação das espécies de mamíferos.

"Modelos N-mixture como aliados para a conservação de primatas da Mata Atlântica"
Palestrante: Vanessa Guimarães-Lopes
Resumo: As invasões biológicas podem interferir decisivamente na dinâmica de processos ecológicos importantes. Para os primatas do gênero Callithrix, as introduções de congêneres e a hibridização representam uma das maiores ameaças às espécies nativas. Sendo assim, a eficácia de planos de manejo para espécies invasoras e seus híbridos, bem como estratégias de conservação visando espécies nativas ameaçadas, exigem estimativas precisas do tamanho das populações existentes. Dessa forma, esta apresentação traz uma breve discussão sobre como a utilização de métodos de playback em conjunto com modelos N-mixture mostraram ser útil e eficazes para estimar a abundância e a probabilidade de detecção de indivíduos não marcados de primatas acusticamente responsivos, como os do gênero Callithrix - espécies nativas, invasoras e híbridas, além de avaliar os fatores ambientais que influenciaram esses dois parâmetros, corrigindo a detecção imperfeita e/ou falsas ausências nas estimativas de abundância. Sabendo que dados apenas de presença, no qual estimam abundância assumindo uma detecção de indivíduos perfeita, podem estimar mal a abundância populacional e indicar informações errôneas acerca das espécies, o uso dos modelos N-mixture se configura como uma ferramenta eficaz para estimar a abundância populacional de forma mais precisa, contribuindo para a compreensão do status de conservação das espécies, assim como para o desenvolvimento de planos de ação e de manejo mais direcionados.

"A visitação turística e seu impacto sobre a mastofauna em unidades de conservação"
Palestrante: Marcela de Frias Barreto
Resumo: Nesta fala será explorado como uso de armadilhas fotográficas e modelos de ocupação podem ser utilizados como uma abordagem importante para avaliar o impacto da atividade turística sobre a comunidade de mamíferos de médio e grande porte em unidades de conservação do Brasil. Inicialmente, em uma primeira etapa, será destacado o papel desta abordagem para avaliar os fatores (ou variáveis) que podem influenciar a distribuição dos turistas nas unidades de conservação. Posteriormente, esta mesma abordagem, e a partir dos resultados da primeira etapa, será utilizada para investigar como a distribuição dos turistas influencia a distribuição dos mamíferos. Além do mais, será demonstrado o uso desta abordagem para avaliar o efeito da intensidade de visitação turística em unidades de conservação durante a pandemia sobre a distribuição dos mamíferos. A apresentação será finalizada com insights para o manejo sustentável da atividade turística em unidades de conservação, identificando espécies e localidades mais afetadas, e, portanto, integrando a conservação da fauna e a preservação das áreas protegidas com a atividade turística.

"Modelos de ocupação como ferramenta para entender o uso de UCs por cachorros domésticos"
Palestrante: Ana Maria de Oliveira Paschoal
Resumo: Espécies invasoras são umas das maiores ameaças à biodiversidade, sendo que a presença de cachorros domésticos no interior de unidades de conservação da Mata Atlântica é atualmente um dos maiores desafios para os gestores. Nesta fala será abordado como o uso de modelos de ocupação, combinados com armadilhas fotográficas, pode ser útil para entender as variáveis que influenciam a distribuição desta espécie no interior dos remanescentes florestais. Além do mais, como a grande maioria destes cachorros possuem donos, será demonstrado como as características de gestão dos cachorros, assim como do status de saúde, vacinação, etc, podem ser usadas como variáveis preditoras para entender a influência delas na potencialização da entrada dos mesmos nestes remanescentes. Ao abordar essa problemática, busca-se não apenas compreender a distribuição dos cachorros domésticos nos remanescentes florestais, mas também fornecer um arcabouço de informações valiosas para a gestão eficaz desses espaços, visando a conservação da biodiversidade, mas também considerando as dinâmicas complexas relacionadas à presença humana no entorno e seus animais de estimação.

Resumo: Os integrantes da mesa redonda trarão suas experiências que contribuíram para a conservação da mastofauna em diferentes regiões do Brasil, por meio de projetos originados em contextos externos a instituições acadêmicas públicas e universitárias. A trajetória profissional dos integrantes se desenvolveu a partir de suas formações e atuações científicas, mas com o desdobramento para atividades que permeiam diferentes setores da sociedade, incluindo consultoria e licenciamento ambiental de empreendimentos, gestão e elaboração de políticas públicas, projetos conservacionistas realizados por organizações não governamentais do terceiro setor, bem como projetos de pesquisas para geração de conhecimento e tecnologia aplicada ao desenvolvimento sustentável por entidades privadas. A diversa atuação destes profissionais ao longo dos anos, influenciou na tomada de decisões, promoveu coordenação e sinergia de ações, e viabilizou diferentes recursos para a implementação de ações de efeito prático conservacionista para muitas espécies. Nesse contexto, espera-se que cada palestrante possa fornecer um relato profissional, expondo erros e acertos, desafios superados, e resultados exitosos na conservação de mamíferos silvestres, servindo exemplos e inspirações ao público interessado.
 

"Conservação Ambiental envolvendo a Iniciativa Privada"
Palestrante e coordenador: Helio Secco(FALCO Ambiental / NUPEM-UFRJ)
Resumo: Experiência do licenciamento ambiental do projeto de duplicação da rodovia BR-101/RJ, que resultou na implementação de dezenas de dispositivos de travessia segura para a fauna, incluindo entre os diferentes tipos de designs e estruturas, um viaduto vegetado que conecta a paisagem fragmentada de Mata Atlântica na região corta a APA do Mico-Leão-Dourado. Além deste estudo de caso, será abordado outro projeto de licenciamento ambiental que culminou no embasamento necessário para a elaboração de estratégias de conservação específicas para população de preguiça-de-coleira-do-sul isolada na restinga da RPPN Fazenda Caruara, no norte do estado do Rio de Janeiro.

"Ambiental, Social e Governança (ASG): iniciativas baseadas em boas práticas empresariais que resultam em ações em prol da conservação da biodiversidade mastofaunística"
Palestrante: Priscilla Cobra
Resumo: Em tempos de mudanças climáticas e necessidade de produção de energia alternativa ao modo tradicional, a sigla em inglês conhecida como ESG (Enviromental, Social and Governance) vem colocar em prática os conceitos do desenvolvimento sustentável aplicado aos negócios. A prática ASG (Ambiental, Social e Governança) realizada na prática dentro das grandes empresas abre oportunidades para implementação de ações e projetos de conservação da biodiversidade. Nesse contexto, será apresentado e discutido como dos Padrões de Desenpenho da International Finance Corporation (IFC) pode ser uma oportunidade na governança entre o setor privado e academia, gerando ganhos positivos para a conservação da natureza, especialmente para espécies de mamíferos selvagens.

"Desafios e oportunidades de projetos de conservação de longo prazo liderados pelo terceiro setor"
Palestrante: Gabriela Cabral Rezende (IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas)
Resumo: A partir do exemplo do Programa de Conservação do Mico-leão-preto, (IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas), que completa 40 anos em 2024, discutiremos o impacto ambiental, social e econômico de projetos de conservação multidisciplinares, que tem como foco uma espécie bandeira da mastofauna brasileira. Apesar da atuação de longo prazo potencializar os resultados, existem também desafios, como a sustentabilidade financeira, a manutenção e engajamento de uma equipe e a constante necessidade por inovação na atuação. Essa apresentação tratará, portanto, das oportunidades e desafios em programas de conservação de longo prazo, tanto para a espécie, o bioma e sua biodiversdidade associada, quanto para a área de influência do projeto.

"O acesso às diferentes fontes de financiamento para execução de projetos de mastofauna"
Palestrante: Fabiano Rodrigues de Melo (Depto. Eng. Florestal, UFV)
Resumo: A ciência brasileira depende de um forte esquema de financiamento público. Neste sentido, executar projetos de pesquisa no país se tornou um processo lento e custoso, onde, muitas vezes, outras fontes de financiamento são desprezadas. Pensando nisso, é importante o pesquisador da área compreender as diversas formas de se obter recursos para pesquisa, em particular, de fontes diretamente ligadas à iniciativa privada. Portanto, vou discorrer um pouco sobre como podemos nos desvencilhar de obstáculos e contar com a parceria de outros setores da sociedade para executarmos os planos de trabalho e atuarmos como pesquisadores no Brasil e, em última instância, efetuarmos a conservação de nossas espécies de mamíferos.

Resumo: Compreender as consequências diretas e indiretas das mudanças climáticas é um dos grandes desafios encontrados pelos ecólogos atualmente, dada a sua natureza dinâmica, em que múltiplos fatores variantes no tempo influenciam os processos biológicos numa vasta gama de escalas temporais e espaciais. Uma necessidade particularmente crítica é a de registos longitudinais de populações, i.e., estudos de longo prazo baseados em indivíduos, com duração suficiente para abranger alterações climáticas significativas. No entanto, poucos estudos de longo prazo com mamíferos abrangem mais de uma década, principalmente no sul global, região com maior concentração de biodiversidade e maior taxa de degradação ambiental. O objetivo desta mesa redonda é apresentar os resultados de quatro estudos de monitoramento de longo prazo de populações de pequenos mamíferos distribuídos em diferentes ecossistemas sul-americanos, de florestas tropicais a regiões semiáridas. Em comum, estes estudos abordam como mudanças ambientais locais e de larga escala impactam a demografia e a dinâmica populacional de marsupiais e roedores. Ao fim, serão discutidos os principais desafios e a importância dos estudos de longo prazo como ferramenta fundamental na geração de novas informações sobre as espécies estudadas e suas respostas frente as mudanças climáticas.
 

"Estudos de longo prazo como ferramenta para entender a dinâmica populacional de pequenos mamíferos no Cerrado"
Palestrante: Natália Oliveira Leiner
Resumo: Considerando o aumento das pressões impostas pelas atividades humanas e o advento das mudanças climáticas, é urgente entender os principais fatores responsáveis pela dinâmica das populações de animais silvestres. Nesse sentido, monitoramentos de longo prazo são vistos como ferramentas essenciais para compreender a respostas das populações a mudanças ambientais e elaborar estratégias de conservação das mesmas. Apesar de ser um hotspot global de biodiversidade, o Cerrado brasileiro se encontra fortemente ameaçado pela perda de habitats, mudanças climáticas e alterações no regime de fogo. Dentro desse contexto, pretendo apresentar as séries temporais mais longas (entre 2010 e 2020) sobre a dinâmica populacional de pequenos mamíferos no Cerrado do Brasil central, demonstrando como fatores endógenos e exógenos afetam as flutuações populacionais de espécies com histórias de vida contrastantes. Pretendo discutir como parâmetros demográficos de roedores e marsupiais respondem a flutuações de temperatura e precipitação e mudanças na estrutura da vegetação ao longo do tempo. Além disso, discutirei como eventos de fogo, os quais têm se tornado cada vez mais intensos e frequentes no Cerrado brasileiro, afetam a dinâmica populacional desses animais.

"Mudanças climáticas globais e populações de pequenos mamíferos no centro-norte do Chile"
Palestrante: Andreia Previtali
Resumo: Desde 1989, populações de pequenos mamíferos são monitoradas em uma região semiárida no centro-norte do Chile através de um complexo sistema de grades de captura de animais vivos em grande escala. Exclusões seletivas de predadores vertebrados ou supostos competidores de pequenos mamíferos, ou ambos, produziram efeitos relativamente pequenos e principalmente transitórios na dinâmica populacional de pequenos mamíferos. Durante o período de estudo de 35 anos, ocorreram 6 episódios de El Niño/chuvas intensas com duração de 1 a 3 anos, mas desde 2003, a região esteve em grande parte sob condições de seca. Pequenos mamíferos residentes ou centrais em áreas de thorn-scrub, como Abrothrix olivacea, Phyllotis darwini e Octodon degus, experimentam flutuações dramáticas durante e após grandes pulsos de chuva. Durante um período de 20 anos, o O. degus compreendeu a maior parte da biomassa de pequenos mamíferos, mas face à seca extrema e prolongada registada desde 2018, surgiu um novo padrão. Nesta apresentação, atualizamos a dinâmica do ecossistema apresentada por Meserve et al. 2011 (DOI:10.1644/10-mamm-s-267.1) e discutiremos as consequências de longo prazo das mudanças nos padrões de precipitação devido ao El Niño Oscilações Sul (ENSO), com importantes teleconexões a fenômenos de escala global. Finalmente, enfatizaremos como ajustamos os focos de investigação face a mudanças imprevistas nas condições ambientais, e destacamos como a investigação em curso ampliarão a nossa compreensão das respostas bióticas às condições ambientais, incluindo as alterações climáticas.

"Importância de estudos de longa duração nos estudos sobre eventos climáticos extremos e respostas populacionais de pequenos mamíferos da Mata Atlântica"
Palestrante: Camila dos Santos de Barros
Resumo: Compreender as respostas das populações de animais silvestres às alterações climáticas é uma das questões mais urgentes atualmente. Isto é especialmente verdadeiro para as florestas tropicais, onde os estudos de longo prazo são incipientes e onde se concentra a maior parte das ameaças à biodiversidade. Estudos de monitoramento de longo prazo são essenciais para rastrear e detectar os efeitos das mudanças climáticas em grande escala na dinâmica populacional. Um resultado das alterações climáticas é a modificação do funcionamento dos sistemas climáticos, como o El Niño Oscilação Sul (ENSO), cuja intensidade aumentou ao longo das últimas décadas. Uma vez que este fenômeno ocorre a cada 2 a 5 anos, apenas estudos de longa duração são capazes de obter dados com repetições suficientes desses eventos a fim de que se compreenda os efeitos locais das distintas fases do ENSO nas populações animais. Nesta palestra, apresentarei as séries temporais mais longas sobre a dinâmica populacional de pequenos mamíferos na Mata Atlântica no sudeste do Brasil para compreender como efeitos locais das distintas fases do ENSO (El Niño e La Niña) afetaram o clima local e como as populações responderam a esses eventos entre 1995 e 2023.

"Estudos de monitoramento populacional de longo prazo: desafios e oportunidades"
Palestrante e coordenadora: Mariana Silva Ferreira 
Resumo: Um problema central nos estudos de ecologia e evolução dos mamíferos é que muitos dos processos ecológicos e evolutivos mais importantes que afetam os indivíduos e as populações, incluindo processos demográficos, ocorrem normalmente ao longo de vários anos ou décadas. Desta forma, estudos de monitoramento de longo prazo de populações tornam-se fundamentais para o teste e desenvolvimento de teorias ecológicas e para a melhor compreensão de padrões ecológicos e evolutivos complexos. Hoje, estes estudos mostram-se ainda mais importantes frente ao cenário das mudanças climáticas. No entanto, apesar da sua reconhecida importância, estudos de longo prazo são relativamente escassos e majoritariamente concentrados no norte global. Nesta palestra, irei discutir (1) os principais desafios da criação e da manutenção de estudos de longo prazo, com foco em estudos de monitoramento de populações de pequenos mamíferos, (2) o potencial destes estudos em gerar novas informações sobre os sistemas estudados e ser uma plataforma para estudos colaborativos, promovendo pesquisas multidisciplinares, e (3) a possibilidade de ampliar nossa compreensão das respostas ecológicas às mudanças ambientais.

 
Resumo: Tecnologias tridimensionais estão cada vez mais presentes na pesquisa (e.g., modelos para análises de elementos finitos e morfometria geométrica), ensino e divulgação científica (e.g., modelos interativos, réplicas impressas, realidade virtual). A importância e potencial das coleções virtuais tornaram-se evidentes durante a pandemia de covid-19 e pela perda de material após o incêndio no Museu Nacional. Técnicas de captura de dados virtuais podem ser categorizadas como abordagens tomográficas, que envolvem imagens em fatias, ou abordagens baseadas em superfícies, como a estereofotogrametria. Estas técnicas proporcionam a digitalização de espécimes e, no caso das tomografias, acesso à informação de estruturas internas sem danificar o material. Modelos resultantes podem ser utilizados para diversas aplicações, contribuindo para preservação do espécime original, facilitando o acesso de estudantes e pesquisadores, além de permitir troca remota entre instituições, democratizando a informação científica e solucionando problemas de acesso a materiais raros. Para isso, modelos precisam reproduzir fidedignamente seus espécimes, sem mudanças de escala/proporção, perda ou adição de informações. A compreensão dos usos e limitações de cada técnica de digitalização é essencial na escolha da metodologia adequada para cada espécime e objetivo proposto, a fim de reduzir questões de gastos financeiros e tempo de pesquisa. Dessa forma, esta mesa redonda propõe apresentar e discutir o uso de técnicas de digitalização e.g., tomografias, escâner e estereofotogrametria no estudo de mamíferos fósseis e viventes através de estudos de caso, buscando detalhar quais estudos se adequam a cada objetivo, bem como seus custos, limitações, acurácia, cuidados, dificuldades e potenciais.
 

"Variação morfológica e morfométrica em Odontoceti a partir de modelagem craniana 3D"
Palestrante e coordenadora: Maíra Laeta
Resumo: A construção de modelos cranianos digitais tridimensionais (3D) pode ser feita através de diferentes técnicas utilizando imagens da superfície craniana obtidas durante a visita às coleções científicas. No estudo qualitativo e quantitativo do crânio de cetáceos, destaca-se o uso da estereofotogrametria e do escâner portátil para a construção destes modelos 3D. A escolha da técnica leva em consideração o custo dos equipamentos - seguida das etapas de processamento das imagens, e a dimensão dos espécimes, condições essas que terão impacto na resolução das estruturas cranianas no modelo final permitindo assim a observação detalhada da anatomia. A estereofotogrametria se baseia na combinação de fotografias parcialmente sobrepostas, enquanto o escâner portátil digitaliza a superfície craniana a partir da varredura da estrutura, em ambos os métodos de modelagem 3D há a possibilidade de digitalização do crânio de grandes cetáceos. O uso dessas técnicas se torna relevante por possibilitar que este material seja estudado de forma atemporal, pois há a preservação da superfície craniana possibilitando o acesso ao espécime, aliada a acessibilidade como alternativa à consulta direta, e a facilidade no manuseio, com destaque para crânios de maiores dimensões. No caso de materiais que necessitam de maior atenção em sua preservação como materiais espécimes-tipo, taxa extintos e outros exemplares fósseis o uso de técnicas de reduzam a manipulação e ainda consigam conter informações relativas à forma, anatomia, dimensão, características da superfície (e.g., coloração e textura), entre outras, poderá ser ainda mais relevante na preservação de tais testemunhos.

"Microtomografia computadorizada: benefícios, desafios e aplicabilidades"
Palestrante: Thomas Furtado da Silva Netto
Resumo: A Microtomografia computadorizada de raios-X é uma técnica não destrutiva que permite visualizar estruturas internas de espécimes com tamanho reduzido, sem a necessidade de preparações prévias. Essa técnica permite a reconstrução de modelos tridimensionais a partir da união de centenas de seções transversais da estrutura analisada, possibilitando inclusive a seleção de regiões de interesse. Essas características fazem dela uma ferramenta interessante para estudos em pequenos mamíferos e análises mais detalhadas de amostras depositadas em coleções científicas sem a manipulação dos espécimes originais. A perda de aproximadamente 80% do acervo do Museu Nacional, incluindo espécimes zoológicos importantes como tipos nominais, destacou a necessidade de preservação digital deste material. Nesse contexto, a Micro-CT surge como uma ferramenta crucial, facilitando a preservação do conteúdo depositado em coleções científicas e promovendo a universalização do acesso a esses recursos. Apesar do potencial da Micro-CT, existem desafios e cuidados a serem considerados. O alto custo dos equipamentos e a necessidade de técnicos especializados limitam o acesso a essa metodologia. Portanto, é essencial realizar uma seleção criteriosa dos espécimes a serem tomografados para evitar gastos desnecessários. Embora tipos nominais e espécimes raros sejam boas opções, outras técnicas de digitalização podem ser mais adequadas, dependendo dos objetivos do estudo e da natureza da amostra (e.g., estereofotogrametria para espécimes taxidermizados sem esqueleto preservado). Além disso, a calibração precisa dos equipamentos é fundamental para garantir a precisão e a acurácia dos modelos obtidos. Com esses cuidados em mente, essa técnica pode contribuir significativamente para o avanço dos estudos na Mastozoologia.

"Para além do que se preservou: O uso de tomografias e estereofotogametrias para restaurar espécimes e estimar metabolismo e anatomia muscular de cinodontes e mamíferos fósseis"
Palestrante: João Felipe Leal Kaiuca
Resumo: Paleovertebrados são majoritariamente representados por esqueletos parciais, muitas vezes danificados e/ou deformados. Tecidos moles raramente fossilizam, precisando ser reconstruídos com base em comparações com espécies viventes e indicadores morfológicos indiretos. Indicadores também são usados para inferir hábitos locomotores, amplitude de movimentos, força mecânica, metabolismo, entre outros. Porém, para gerar inferências acuradas é necessário utilizar espécimes completos, não deformados, e/ou técnicas destrutivas (e.g., histologia), e, dada sua raridade, o acesso a esses espécimes muitas vezes é limitado por coleções e curadores. Neste contexto, modelos virtuais são úteis, pois permitem: 1) realizar estudos anatômicos, morfofuncionais, biomecânicos e morfométricos sem manipular o espécime original; 2) acessar estruturas internas e/ou na matriz rochosa, sem utilizar técnicas destrutivas; 3) restaurar/retrodeformar espécimes menos preservados, permitindo usá-los em análises ou exposições. Aqui, apresento a geração e uso de modelos tridimensionais no estudo de cinodontes e mamíferos fósseis através de dois estudos de caso. O primeiro estudo demonstra o uso de microtomografias para visualização de espécimes frágeis, de difícil preparação mecânica, e da microestrutura óssea de espécimes já preparados. Microtomografias apresentam alto investimento financeiro e computacional, e nem sempre é possível alcançar contrastes satisfatórios entre fósseis e rocha, ou entre microestruturas, dificultando a geração dos modelos. O segundo estudo de caso apresenta métodos iterativos para estimar e visualizar a anatomia e volume muscular diretamente nos modelos ósseos para estudos biomecânicos. Neste caso, modelos utilizados podem ser gerados por tomografia ou estereofotogrametria, técnica mais barata que pode gerar modelos de superfície comparáveis aos gerados por tomografia.

"Tomografia computadorizada e acesso a estruturas internas em fósseis"
Palestrante: Roberta Veronese do Amaral
Resumo: A tomografia computadorizada de alta resolução tem sido amplamente utilizada na paleontologia, especialmente na paleontologia de vertebrados, como um método não destrutivo para investigar a estrutura interna dos espécimes. Essa técnica fornece uma análise detalhada e aprofundada do material fóssil, oferecendo percepções mais detalhadas sobre a anatomia e a morfologia de organismos extintos. São técnicas não invasivas que permitem a manipulação interativa de modelos digitais de fósseis sem causar danos ao material. Esses métodos também aprimoram a análise de fósseis, permitindo a reconstrução de estruturas que não se preservam com facilidade, como endocrânio e partes cartilaginosas. A reconstrução dessas estruturas internas possibilitou avanços nos estudos neurológicos de animais extintos, permitindo, inclusive, comparações com formas atuais. O estudo é capaz de identificar diferenças na morfologia interna do crânio, não somente no cérebro, mas incluindo sistema vestibular e seios paranasais entre grupos extintos e atuais. A abordagem paleoneurológica analisa e estuda as estruturas presentes no endocrânio dos vertebrados extintos, o que envolve a moldagem virtual das estruturas presentes no crânio desses animais no contexto da paleontologia digital. Os estudos paleoneurológicos não apenas identificam e descrevem a morfologia, mas também fornecem informações valiosas sobre o comportamento, a ecologia e a filogenia dos táxons. Isso ajuda a entender como as pressões seletivas influenciam a morfologia dessas estruturas e contribui para uma melhor compreensão da evolução do encéfalo por meio do registro fóssil.

Resumo: Desmistificar morcegos representa um convite à compreensão e apreciação desses mamíferos voadores, transcendendo estigmas culturais e medos infundados. A abordagem bioética e cultural busca uma coexistência harmoniosa, reconhecendo a importância intrínseca dos morcegos na saúde dos ecossistemas e na nossa própria. A discussão se estenderá desde uma perspectiva filosófica até considerações bioéticas, culturais e de saúde pública. É comum que a percepção dos morcegos seja enraizada em estigmas e mitos que frequentemente obscurecem seu papel fundamental nos ecossistemas. A abordagem convencional, muitas vezes utilitária e antropocêntrica, será desafiada para promover uma visão mais holística e ética dos morcegos como seres vivos merecedores do direito à vida. A bioética nos desafia a repensar nossa relação com a natureza, questionando preconceitos arraigados e adotando uma visão que respeite o valor intrínseco de cada ser vivo. Culturalmente, os morcegos são frequentemente associados a mitos e superstições, alimentando narrativas negativas. Desconstruir essas crenças é essencial para construir uma coexistência mais saudável. A diversidade de visões sobre morcegos destaca a necessidade de promover uma compreensão global e pluralista, enriquecendo nosso repertório de perspectivas. A relação entre morcegos e saúde pública merece destaque, exigindo uma visão mais abrangente. Em vez de perpetuar o estigma associado a possíveis transmissões de doenças, compreender a ecologia dos morcegos é fundamental para uma convivência que preserve tanto a biodiversidade quanto a saúde humana. Além disso, incorporamos ao debate o projeto "Morcegos na Praça", analisando criticamente sua contribuição para a desmitificação. Este projeto, ao buscar aproximar morcegos do convívio urbano, desafia não apenas concepções arraigadas, mas também propicia uma reavaliação da nossa relação com esses animais. Desmistificar morcegos é uma jornada bioética e cultural em direção à coexistência consciente e respeitosa, abrindo espaço para uma narrativa inclusiva e práticas que promovam a saúde dos ecossistemas e da sociedade.
 

"Morcegos na Filosofia da Biodiversidade"
Palestrante e coordenador: Martín R. Alvarez (UESC) 
Resumo: Esse trabalho convida-nos a explorar o intrincado papel dos morcegos na natureza, ou talvez do nosso papel, explorando desde considerações bioéticas até uma perspectiva fundamentada na filosofia da biodiversidade. Destacamos a singularidade dos morcegos na manutenção do equilíbrio ecológico, como polinizadores, dispersores de sementes, controladores naturais de pragas e outros serviços ecossistêmicos. A diversidade de espécies de morcegos reflete a riqueza dos ecossistemas aos quais estão adaptados, ressaltando sua contribuição única para a biodiversidade global. A abordagem tradicional para tentar desmitificar os morcegos revela-se utilitária e antropocêntrica, e será desafiada neste trabalho. O intuito é promover uma visão mais holística e ética dos morcegos, reconhecendo-os como seres vivos merecedores do direito à vida. Sob essa perspectiva filosófica e bioética, buscamos não apenas compreender os morcegos como agentes funcionais nos ecossistemas, mas também reconhecê-los como seres vivos intrinsecamente valiosos, merecedores de respeito e preservação independentemente de sua utilidade percebida para os seres humanos. Este estudo, incompleto como a vida, convida-nos a reavaliar nossa relação com a natureza, promovendo uma visão ética e inclusiva que abraça a interconexão de todas as formas de vida.

"Etnozoologia e Morcegos: Compreendendo os Mitos"
Palestrante: Eraldo Medeiros Costa Neto (UEFS)
Resumo: Esta apresentação abordará a diversidade cultural na percepção de morcegos, visando identificar e desconstruir mitos que prejudicam a imagem desses animais em distintas culturas. Apesar de estarem protegidos pela Lei de Crimes Ambientais, os morcegos têm sido vítimas de várias ações danosas. Presentam-se lendas e mitos atribuídos aos morcegos, bem como o valor biocultural desses animais em diversas culturas no Mundo. Poucas medidas têm sido tomadas para minimizar tal situação de ameaça à sobrevivência das espécies. A Educação Ambiental é o recurso mais apropriado de informação sobre a importância desses animais para o Meio Ambiente e, consequentemente, para os seres humanos.

"Saúde Única: Morcegos, Zoonoses e Perspectivas Futuras"
Palestrante: Emanuel Messias Vilar (UFPB)
Resumo: Nesta apresentação, exploraremos a intrincada relação entre morcegos e zoonoses sob a ótica da saúde única. Morcegos são frequentemente associados a uma série de enfermidades, de cujo ciclo de transmissão de patógenos não necessariamente participam. Este fato advém da falta de conhecimento, seja do público, seja dos profissionais de saúde que lidam diretamente com essas doenças. O déficit de informações, somada à disseminação indiscriminada de notícias falsas, criou um novo cenário desafiador nos últimos anos, estigmatizando os morcegos como suposta fonte primária de patógenos com potencial pandêmico. O melhor exemplo disso foi a pandemia causada pelo SARS-CoV-2. Durante este período, notícias falsas relacionaram a fonte do vírus a uma sopa de morcegos, incentivando o extermínio dos animais ao redor do mundo. É urgente consolidar um entendimento real da relação entre morcegos e saúde pública, transcendo a perspectiva utilitarista que os enxerga apenas como reservatórios de vírus. Propõe-se uma visão mais abrangente, reconhecendo os morcegos como agentes naturais para o equilíbrio da saúde dos ecossistemas, inclusive em ambientes urbanos.

"10 anos do projeto Morcegos na Praça: experiências de desmistificação para a conservação dos morcegos"
Palestrante: Elizabete Captivo Lourenço (UERJ)
Resumo: Apresentarei um compilado dos resultados de 10 anos de pesquisa científica de percepção ambiental sobre morcegos. O que as pessoas pensam quando perguntamos sobre morcegos? Existe diferenças regionais? De idade? Escolaridade? Relataremos as experiências de 10 anos de contato com o público e de atividades educacionais em prol da conservação dos morcegos. Será que ações educacionais são o suficiente para a conservação das espécies e do ambiente? O Projeto “Morcegos na Praça” representa uma década de esforços em desmistificar e promover a conservação, e esta apresentação visará compreender o impacto real dessas ações na conscientização e preservação das espécies.

 
Resumo: A Peste chegou ao Brasil há 125 anos, durante a terceira Pandemia, por via marítima, sendo 18 de outubro de 1899 os registros oficiais dos primeiros casos humanos na cidade de Santos (SP). Trata-se de uma zoonose de roedores silvestres que pode, a depender das condições, infectar outros mamíferos, inclusive causar doenças em seres humanos. Os focos de peste no Brasil estão localizados no Nordeste (PE, CE, BA, PB, PI, RN, AL) e norte de MG, e na Serra dos Órgãos (RJ). Apesar do declínio dos casos humanos a frequência de anticorpos específicos nos animais sentinela constatada nas atividades de vigilância sorológica permite inferir que os focos brasileiros permanecem ativos. As ações de controle da peste desenvolvidas nestes 125 anos da zoonose no Brasil geraram amplo conhecimento e um robusto acervo de material biológico (zoológico e microbiológico) que atualmente estão depositados em Coleções Biológicas e representam uma inesgotável fonte de informação. Lições obtidas a partir dessas Coleções serão discutidas nessa mesa redonda.
 

"A peste no Brasil e o Serviço de Referência Nacional em Peste"
Palestrante e coordenadora: Alzira Almeida
Resumo: Para investigar a exótica doença que chegou ao Brasil, através do Porto de Santos-SP em 1899 estiveram juntos quatro luminares da Ciência Brasileira, os doutores Vital Brazil, Adolfo Lutz, Emílio Ribas e Oswaldo Cruz. Em 1900 foi criado Instituto Soroterápico Federal e o Pavilhão da Peste (1904) ambos no Rio de Janeiro e em 1901 o Instituto Soroterápico na Fazenda Butantan, São Paulo. O Instituto Aggeu Magalhães, FIOCRUZ-PE, desde 1966, com a instalação do Plano Piloto de Peste em Exu, vem prestando serviços e realizando estudos sobre a peste. Formalmente institucionalizado em 2000 e nacionalmente credenciado como integrante da Rede Nacional de Laboratórios de Vigilância Epidemiológica/MS a partir de 2002, o Serviço de Referência Nacional em Peste (SRP) desenvolve diversas atividades e presta os seguintes serviços: Produção e Fornecimento de insumos para diagnóstico da Peste aos Laboratórios credenciados da rede, suprindo as necessidades nacionais; Controle de qualidade das análises realizadas nas sub-redes de laboratórios; Diagnóstico Sorológico, Bacteriológico e Molecular em amostras clínicas ou de origem animal; Atividades de pesquisa no desenvolvimento e avaliação de métodos de diagnóstico e vigilância epidemiológica; Capacitação de recursos humanos nas metodologias de diagnóstico laboratorial, atividades de campo e trabalhos com pulgas (vetores da peste) e roedores (hospedeiros/reservatórios da peste) para técnicos das Secretarias Estaduais de Saúde e outros; Assessoria ao Ministério da Saúde contribuindo para a vigilância e controle do agravo no País; Elaboração e implementação de protocolos, normas e Manuais; Manutenção e preservação da Coleção de culturas de Yersinia pestis (Fiocruz/CYP)

"A coleção de culturas de Yersinia pestis (Fiocruz/CYP) como um testemunho da peste no Brasil"
Palestrante: Marise Sobreira
Resumo: A coleção de cultura de Yersinia pestis (Fiocruz-CYP), cocobacilo Gram-negativo, da família Enterobacteriaceae, agente causador da peste, é parte do acervo das 33 Coleções Biológicas da Fiocruz. Teve início em 1966, com o Plano Piloto de Peste, projeto patrocinado pelo governo brasileiro e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente é composta de 917 cepas isoladas de roedores (508), pulgas (240), e seres humanos (159) durante as atividades de vigilância e controle de peste em áreas focais, no período de 1966 a 1997. A maioria das cepas foram coletadas na Chapada do Araripe, Serra de Triunfo, Chapada da Borborema, Serra da Ibiapaba e Serra de Baturité focos dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba e algumas na Bahia e Minas Gerais. A Fiocruz/CYP está associada ao Serviço de Referência Nacional de Peste (SRP) do Instituto Aggeu Magalhães (IAM) Fiocruz/PE, está inserida na rede speciesLink e registrada na World Federation Culture Collection (WFCC). A Fiocruz/CYP preenche as características de coleção de trabalho, referência e pesquisa. Os dados associados aos isolados de roedores do acervo representam uma importante fonte de informação que nos permite acompanhar, associado aos dados atuais das atividades de vigilância epidemiológica e pesquisa do SRP, importantes aspecto da dinâmica ecológica das diversas espécies de mamíferos envolvidas nas diferentes áreas de focos.

"Espécies hospedeiras da peste no Brasil: atualização taxonômica"
Palestrante: Cibele Bonvicino
Resumo: A peste, uma zoonose transmitida para humanos pela pulga infectada com Yersinia pestis, ainda ocorre nas Américas do Sul e do Norte, Ásia e África, sendo considerada uma doença re-emergente, com potencial epidêmico que pode surgir com surtos descontínuos. Apesar de amplamente estudado no século passado, as espécies hospedeiras dessa zoonose necessitam ser constantemente reavaliadas devido às alterações nos arranjos taxonômicos desses táxons. No Brasil, espécies de roedores silvestres dos gêneros Cerradomys, Calomys, Akodon, Necromys, Oligoryzomys, Holochilus, Galea, e Thrichomys, já foram encontradas positivas para pestes, além de marsupiais dos gêneros Monodelphis, e Didelphis. Atendendo a uma solicitação do Ministério da Saúde foram realizados inventários nas regiões do nordeste brasileiro que já tiveram foco de peste para coleta e treinamento, incluído localidades no Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia, para revisar a nomenclatura dos reservatórios de peste. Pelo menos seis das espécies envolvidas com a peste no Brasil sofreram mudanças taxonômicas. Nos últimos 30 anos, foram registrados casos de peste na Bolívia, Brasil, Equador e Peru. Estes quatro países apresentam uma elevada riqueza de espécies de roedores nos focos de peste, facto que pode ser decisivo para a manutenção da peste na natureza.

"A importância das coleções de mamíferos oriundas de epizootias e de monitoramentos de zoonoses"
Palestrante: João Alves de Oliveira
Resumo: Serão apresentadas as coleções de mamíferos do Serviço de Estudos e Pesquisas sobre a Febre Amarela e do Serviço Nacional de Peste, obtidas respectivamente nas décadas de 1940 e 1950 e depositadas no Museu Nacional / UFRJ, bem como a coleção de primatas obtida durante o último surto de Febre Amarela silvestre no Rio de Janeiro ocorrido entre 2018 e 2021. A relevância desses acervos será discutida com base nos estudos que têm sido realizados a partir deles, destacando-se as análises da estrutura etária, reprodução e flutuações populacionais de pequenos mamíferos no nordeste do Brasil e a caracterização morfológica e genética de híbridos de Callithrix no estado do Rio de Janeiro. As diferentes circunstâncias em que essas coleções foram formadas e as limitações metodológicas que determinam suas principais restrições serão analisadas visando o melhor aproveitamento de material em monitoramentos durante períodos de silêncio epidemiológico e em eventos epizoóticos. Da mesma forma, serão discutidas prioridades no registro de informações comparáveis em escalas mais abrangentes de espaço e tempo, assim viabilizando melhores estudos em mastozoologia bem como a melhor compreensão dos determinantes das epizootias e dos surtos epidemiológicos.

Resumo: O estudo da variação da abundância e diversidade de espécies não é apenas um tema central em Ecologia, mas uma das suas definições como ciência. Abundância e riqueza de espécies têm relações com disponibilidade de recursos e todo tipo interações entre espécies. Entretanto, recursos e interações não se dão uniformemente no espaço. A heterogeneidade na distribuição de recursos e organismos faz uma mediação destas relações, heterogeneidade que é incorporada através da abordagem da Ecologia de Paisagens. A variação da abundância e diversidade de espécies depende então desta mediação da paisagem (“landscape moderation”), termo cunhado para definir como a estrutura da paisagem (sua configuração e composição) mediam a biodiversidade existente. Como se dá esta mediação é um tema ainda em aberto, com várias possibilidades e hipóteses. Nesta mesa redonda vamos discutir algumas questões envolvidas nesta mediação da paisagem, tando sobre hipóteses de mecanismos e processos envolvidos, como questões metodológicas.
 

"Como a sazonalidade na dinâmica de uso do solo media a abundância e riqueza de mamíferos em paisagens locais?"
Palestrante e coordenador: Marcus Vinícius Vieira
Resumo: Efeitos de perda e fragmentação de habitats sobre abundância ou diversidade de espécies são frequentemente avaliados a partir da comparação de estudos pontuais, comparando estimativas de abundancia/riqueza entre paisagens locais com diferentes graus de cobertura vegetal nativa, tipos de matriz, ou uso do solo. Muito se tem avançado no conhecimento destes efeitos com esta abordagem, mas ignoramos ainda o quanto a abundância e riqueza de espécies podem variar por processos estocásticos e determinísticos resultantes da dinâmica sazonal no uso do solo, especialmente em matrizes onde dominam atividades agrícolas. Muitas matrizes são transformadas radicalmente entre estações ou épocas do ano. Nesta apresentação revejo as evidências de variação sazonal e temporal na abundância e riqueza de espécies em função da sazonalidade no uso solo, e o quanto desta variação pode ser prevista por atributos funcionais ou de história de vida das espécies.

"Por que as espécies subordinadas se tornam as vencedoras e as espécies dominantes as perdedoras em paisagens antrópicas? Uma reflexão sobre os mecanismos por trás do padrão"
Palestrante: Marina Zanin
Resumo: As mudanças antropogênicas da paisagem alteram as abundâncias de espécies, de forma que espécies consideradas competitivamente dominantes podem se tornar menos frequentes na paisagem alterada, sendo substituídas por espécies competitivamente subordinadas. Nessa palestra, tratarei de três hipóteses mecanicistas que explicam a mudança de abundâncias entre mamíferos com forte potencial de competição (predador dominante e mesopredador ou especialistas e generalistas), bem como de suas evidências empíricas: (i) inversão de dominância - enquanto as espécies dominantes geralmente são especializadas ou possuem altas exigências ecológicas, as espécies subordinadas são mais tolerantes (maior amplitude de nicho), o que lhes permitiria prevalecer no ambiente modificado e suprimir as espécies anteriormente dominantes por meio da competição; (ii) liberação de subordinadas/mesopredadores - a alteração da paisagem pode reduzir diretamente as espécies dominantes, liberando espaço ecológico e indiretamente possibilitando a proliferação de espécies subordinadas; e (iii) competição aparente - as espécies podem ser reguladas diretamente e exclusivamente pela perturbação antropogênica, com efeitos negativos sobre as dominantes e positivos sobre as espécies subordinadas.

"O potencial da heterogeneidade para mediar as consequências negativas da simplificação agrícola da paisagem sobre a biodiversidade"
Palestrante: Marcella do Carmo Pônzio
Resumo: A agricultura intensiva promove a conversão de habitats naturais e culturas diversificadas em monoculturas, diminuindo tanto a cobertura de vegetação nativa como a heterogeneidade da paisagem, levando à simplificação da paisagem. Nessa palestra, irei abordar estudos resultantes de um desenho de amostragem hierárquico que maximizou a variação, ao mesmo tempo que minimizou a correlação, entre a heterogeneidade da paisagem e a cobertura de vegetação nativa em 55 paisagens em um hotspot global de conservação e uma importante área de produção de commodities agrícolas – o Cerrado. Ao distinguir os efeitos dessas duas dimensões da paisagem, nós conseguimos encontrar resultados que demonstram o papel da heterogeneidade da paisagem em suportar comunidades de mamíferos nativos e controlar populações de invasores, como o javali (Sus scrofa). Dessa forma, a heterogeneidade da paisagem pode amortecer impactos negativos da perda de vegetação nativa, como a extinção de espécies nativas e o estabelecimento de espécies invasoras. Assim, os resultados desses estudos demonstram que, além de reduzir a perda de habitat, evitar a homogeneização da paisagem é fundamental para conciliar a produção agrícola e a conservação da biodiversidade, apontando para a relevância de políticas que incentivem a diversificação das culturas.

"Uso de modelos de adequabilidade ambiental para prever abundâncias de mamíferos"
Palestrante: Carlos Eduardo de Viveiros Grelle
Resumo: Apesar da relevância, ainda existem poucos estudos sobre a variação espacial e temporal das abundâncias, em relação aos estudos sobre riqueza de espécies. Um dos motivos é a dificuldade em obter dados de abundância em muitas localidades e por vários anos. Nessa palestra eu vou explorar a possibilidade do uso dos modelos de adequabilidade ambiental, originalmente usados para estimar distribuição geográfica potencial, para prever a variação espacial das abundâncias dos mamíferos. Existem informações independentes sobre a ocorrência e abundância local para algumas espécies, e isso possibilita testar se a adequabilidade ambiental é capaz os locais com maiores abundâncias. Mostrarei exemplos de espécies onde existe essa relação positiva entre adequabilidade ambiental e abundância, inclusive para espécies que reservatórios de zoonoses mostrando a importância dessas análises para prever novos surtos.

Resumo: Quando se fala em conservação de fauna silvestre, é inevitável a associação aos conflitos socioambientais, que surgem naturalmente devido às divergências de interesses e às diferentes perspectivas sobre a proteção da vida silvestre, incluindo aí a mastofauna. Neste sentido, as pesquisas voltadas a este tema se fazem cada vez mais necessárias, tanto para aprimorar os métodos utilizados quanto para elaborar estratégias de intervenção que promovam uma gestão do conflito rumo à coexistência, ou seja, a uma situação em que tanto as pessoas quanto a fauna silvestre possam coexistir com o mínimo prejuízo para ambos. A proposta desta mesa é apresentar diferentes pesquisas que abordaram a temática dos conflitos socioambientais relacionados a mamíferos terrestres e aquáticos, passando por temas como interdisciplinaridade, a inclusão de saberes não-acadêmicos e a importância da interlocução com setores privados, como o turismo.
 

"“Fale-me mais sobre isso”: contribuições das Ciências Humanas para a realização de diagnósticos de conflitos socioambientais"
Palestrante e coordenadora: Maria Augusta de M. Guimarães
Resumo: Ações de conservação voltadas às espécies ameaçadas normalmente envolvem uma diversidade de fatores complexos, multifacetados e desafiadores. Um destes, em especial, é o fator humano, que vem ganhando cada vez mais destaque nas pesquisas e discussões sobre o tema. O trabalho dos órgãos ambientais quase sempre afeta – direta ou indiretamente – as pessoas residentes onde se pretende atuar e, consequentemente, o sucesso ou não das estratégias de conservação. Desta forma, a realização de um diagnóstico eficiente dos conflitos socioambientais é um passo importante para a condução das medidas a serem tomadas, das escolhas que serão feitas e dos atores a serem envolvidos. Nesse sentido, a interlocução com as Ciências Humanas pode contribuir, já que, por se tratar de conflitos entre pessoas, entra-se no campo da subjetividade. Logo, os conhecimentos tanto sobre agrupamentos sociais, quanto do funcionamento psíquico do ser humano, surgem como ferramentas importantes para auxiliar na metodologia escolhida, seja para a abordagem de potenciais entrevistados, para escutar os stakeholders com a neutralidade e a empatia necessárias para a compreensão do conflito, assim como para obter e validar informações relacionadas a temas ilegais ou sensíveis. Nesses casos, a interdisciplinaridade envolvendo Psicologia, Filosofia e Biologia, dentre outras áreas, auxilia não somente a metodologia qualitativa das pesquisas, mas também a pensar criticamente e formular questões sobre o estilo de vida da sociedade contemporânea e seus impactos sobre as pessoas e a fauna silvestre, trazendo como pano de fundo uma compreensão mais profunda do conflito e, consequentemente, clarificando o caminho da busca de soluções.

"Saberes quilombolas na gestão de fauna: interação humano-fauna e coexistência"
Palestrante: Raquel Costa da Silva
Resumo: Um grande desafio da conservação moderna é como promover o equilíbrio entre a proteção da vida selvagem e as necessidades das comunidades tradicionais. Na Mata Atlântica, muitos territórios quilombolas estão sobrepostos por Unidades de Conservação (UC), cuja criação, em sua maioria, foi imposta às comunidades e teve pouca participação da população, resultando em tomadas de decisões acerca da gestão de fauna que muitas vezes reproduzem um sistema hierárquico top-down de poder e do saber. Historicamente, há centenas de anos, as comunidades quilombolas, definidas como grupos étnico-raciais com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida pelo período de escravização, possuem uma relação direta com a natureza, na qual essa coexistência humano-fauna e o conhecimento empírico acumulado sobre a mastofauna podem contribuir para uma gestão sustentável e inclusiva da fauna. Assim, a pesquisa tem como objetivo analisar a gestão da mastofauna não voadora em território quilombola sobreposto por UC a partir dos conhecimentos e das percepções das comunidades locais e da coexistência humano-fauna.

"A importância de compreender a percepção de stakeholders para definir ações de co-manejo do whale-watching no Espírito Santo"
Palestrante: Pilsen Ca’lía da Costa Peterle
Resumo: O turismo de observação de baleias (whale-watching) no Espírito Santo (ES), sudeste do Brasil, compreende uma atividade ainda em expansão. Apesar dos benefícios, o whale-watching possui potencial de interferir na dinâmica dos ecossistemas visitados, de modo que ainda existem lacunas para o entendimento dos efeitos do turismo, a curto e longo prazo, no comportamento de cetáceos. Ainda, apesar da extensa faixa litorânea, a região metropolitana do ES carece de estruturas que possibilitem atividades de turismo náutico, resultando muitas das vezes na sobreposição de uso de áreas entre o whale-watching e pescadores artesanais, desencadeando o que Hardin (1968) chama de “Tragédia dos Comuns”. Nesse contexto, é importante que políticas públicas sejam voltadas também aos eixos sócio-ambientais e não apenas econômicos, valorizando as especificidades culturais e ecológicas da região. Essa é uma discussão que perpassa a Economia do Mar e a Oceanografia Socioambiental em diálogo com a gestão pública. Logo, compreender interações e relações estabelecidas entre populações humanas e ecossistemas marinho e costeiro tem se tornado importante em ações voltadas à conservação da vida marinha. Atualmente, o whale-watching vem sendo uma importante ferramenta de sensibilização ambiental e de promoção da conservação das baleias e dos ecossistemas marinhos e costeiros, tanto pelo uso de uma espécie guarda-chuva quanto pelo encontro proporcionado entre humanos e cetáceos. Portanto, a compreensão da percepção de stakeholders é uma importante etapa na elaboração de estratégias de cogestão para a sustentabilidade, uma vez que permite discussões interdisciplinares e garante a participação dos diferentes atores envolvidos.

"Uma abordagem integrativa de métodos sociais e ecológicos para compreender interações humanos-onças na Amazônia e promover a coexistência"
Palestrante: Wezddy Del Toro-Orozco
Resumo: Seres humanos e mamíferos carnívoros competem há muito tempo por espaço e recursos alimentares. A capacidade de muitas espécies de carnívoros de depredar animais domésticos e até mesmo de atacar/matar pessoas tem provocado emoções intensas de medo e ressentimento em relação aos carnívoros por parte dos humanos ao longo da história. As onças são um dos predadores de animais domésticos mais comuns na Amazônia brasileira. O conflito entre as pessoas e as onças pode gerar prejuízos econômicos e insegurança para as pessoas, e em muitos casos leva ao abate das onças, o que tem sido apontado como um problema de conservação, por ser uma das principais causas do declínio populacional destes felinos. Este conflito é frequente na Amazônia central, onde a população rural e seus animais domésticos dividem o espaço diariamente com as onças. No entanto, os fatores que afetam a percepção das pessoas, bem como as atitudes e/ou ações em relação às onças, não são apenas uma função da perda de animais. São uma combinação de fatores sociais (e.g. conhecimentos, atitudes, sentimentos), assim como fatores ecológicos (e.g. movimento das onças na seleção do habitat para se abrigar, caçar, acasalar). Assim, a questão central da apresentação é: Como podemos integrar os componentes sociais e ecológicos para desenvolver uma melhor compreensão das interações pessoas-onças e, em última análise, propor ações que apoiem tanto a conservação das onças quanto a redução dos riscos reais e percebidos para as comunidades locais? A fala apresentará alguns métodos utilizados e desafios a serem superados.

Resumo: O propósito desta Mesa Redonda é oferecer aos participantes uma abordagem realista sobre a importância da seleção do Delineamento Amostral, abrangendo organismos, métodos e esforços, com o intuito de obter uma resposta minimamente satisfatória ao empregar mamíferos como grupo indicador de alterações ambientais. Serão compartilhados três estudos de caso, sendo dois deles relacionados aos maiores desastres ambientais já ocorridos no Brasil: o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão em Mariana (2015) e a barragem B1 em Brumadinho (2019), no estado de Minas Gerais. As discussões se concentrarão no desenho amostral escolhido para mamíferos, visando compreender os possíveis danos causados ao ecossistema. O terceiro estudo de caso apresentará a experiência de mais de uma década de um programa de monitoramento em um Complexo Eólico na fronteira Brasil-Uruguai para destacar a magnitude dos erros no processo observacional. O estudo propõe definições mais práticas para os princípios norteadores das diretrizes da SBEQ, oferecendo sugestões para tamanhos amostrais mínimos em ensaios de remoção e eficiência de observador, intervalos entre campanhas e tamanhos de raio de busca. A palestra final será uma exposição direcionada a importância do Desenho Experimental nos estudos ambientais, com destaque para o método de escolha de alvos de biodiversidade, bem como para a definição da escala de conservação. Por fim, apresentaremos uma explanação conclusiva dos temas abordados, com o intuito de enfatizar os erros e acertos do delineamento amostral na escolha de mamíferos como indicadores de alterações ambientais.
 

"Mamíferos e o rompimento da barragem de rejeitos B1 em Brumadinho: qual organismo, quando e o que estudar?"
Palestrante e coordenadora: Fabíola Keesen
Resumo: Temos por intento apresentar o processo de escolha e definição metodológica para o monitoramento de lontras (Lontra longicaudis), tratado como organismo resposta aos possíveis danos causados no ambiente em decorrência do rompimento da barragem B1 em Brumadinho, MG. A apresentação pretende enfatizar a importância da correta definição do objeto de estudo, tendo por base a definição de perguntas bem estruturadas para a relação causal que se pretende abordar. Perguntas tais como o porquê, quando e qual organismo estudar devem ser o primeiro pilar de análise. Serão apresentadas as premissas norteadoras da escolha, baseada na existência de uma espécie intimamente relacionada aos ambientes afetados pelo rompimento, ou seja, uma espécie que transitasse pelo ambiente aquático e ambiente terrestre subsequente. Além disso, serão elencados de maneira aplicada os principais pressupostos de um bom indicador ambiental: definição taxonômica, ecologia e história de vida bem conhecidos, nicho ecológico relativamente estreito e possibilidade de mensuração. Por fim, serão apresentados os principais resultados obtidos no primeiro ano de estudo, discutindo a efetividade, ou não, em se alcançar os objetivos propostos.

"O desastre de Mariana: quais respostas práticas nossa teoria nos dará, na prática?"
Palestrante: Diogo Loretto
Resumo: O maior desastre socioambiental do Brasil ocorreu há pouco mais de oito anos vitimando diretamente 19 pessoas, indiretamente outros milhares, de dezenas de municípios de Minas Gerais e Espírito Santo. Além disso, o derrame de ca. 40 milhões de m3 de rejeito de minério de ferro causou intensos impactos ambientais na Bacia Hidrográfica do rio Doce. O desafio dos primeiros estudos, e ainda hoje, é o de medir e dimensionar quais foram esses impactos, quão intensos, extensos e duradouros nas diferentes regiões afetadas. A presente palestra avaliará as primeiras campanhas e resultados obtidos pelo Programa de Monitoramento da Biodiversidade Terrestre da Bacia do rio Doce, com especial atenção à relação entre: (1) o contexto local e regional, (2) os efeitos pontuais, locais e regionais dos impactos visíveis e pressupostos do derramamento do rejeito, (3) as perguntas e objetivos propostos para o programa, (4)

"Enxergando além da “observação direta”: a importância do bom delineamento para estimar impactos diretos de empreendimentos eólicos sobre a quiropterofauna"
Palestrante: Carlos André Zucco
Resumo: Uma das principais ameaças à fauna decorrente da operação de parques eólicos é a mortalidade de aves e morcegos insetívoros decorrente de colisões contra os aerogeradores. Por esse motivo, programas de monitoramento tipicamente incluem a busca ativa por carcaças ao redor dos aerogeradores com o objetivo de quantificar as mortes em seus protocolos. Esse é um processo observacional bastante imperfeito e influenciado pela eficiência do observador, pela remoção natural das carcaças e pela queda de carcaças fora da área de busca. Em 2017, a SBEQ apresentou diretrizes gerais para monitoramentos morcegos em parques eólicos. Para estimativa de mortalidade de morcegos, boas práticas devem incluir a adoção de ensaios de remoção e eficiência de observador com modelos de carcaças e a definição do raio de busca levando-se em consideração o tamanho dos aerogeradores, como forma de corrigir os números observados. Pretendemos usar a experiência de um programa de monitoramento com mais de uma década de campo em um Complexo Eólico na fronteira Brasil-Uruguai para demonstrar o quão extremos podem ser os erros do processo observacional e apresentar definições mais práticas aos princípios norteadores que compõe as diretrizes da SBEQ como sugestões de tamanhos amostrais mínimos para ensaios de remoção e eficiência de observador, intervalos entre campanhas e tamanhos de raio de busca. Além disso, apresentaremos os resultados de um levantamento junto a consultores de campo atuando no monitoramento de parques eólicos da aplicação das diretrizes da SBEQ em programas de monitoramento de fauna atrelados ao licenciamento ambiental no Brasil.

"Definição de alvos e escala em tomadas de decisão em obras civis de grande porte"
Palestrante: Rodrigo Koblitz
Resumo: A partir do início do século XXI, o Brasil voltou a planejar grandes obras no território amazônico, como hidrelétricas, portos, gasodutos, pavimentação de estradas etc. Diferente das décadas anteriores, tais obras foram realizadas sob um processo de licenciamento ambiental com alguma transparência e discussão pública. Um tópico central que surgiu no período mais recente foi o método utilizado para a tomada de decisão de viabilidade de tais grandes obras civis baseadas em biodiversidade. Para esse método o critério da insubstituibilidade foi usado em alguns empreendimentos. Com foco nesse método, a escolha dos alvos de biodiversidade induz fortemente a decisão do órgão ambiental. Escolha de alvos de ampla distribuição tende a levar a conclusão de que o impacto na construção não afeta a biodiversidade. A perda de uma parte de território do elemento de biodiversidade, uma espécie por exemplo, não indica que ela corre risco de extinção. Portanto, selecionar alvos de distribuição local pode refletir melhor o impacto de determinada obra. Outro aspecto crítico é a definição da escala da conservação. São diferentes decisões quando se procura conservar um elemento de biodiversidade em uma microbacia ou na cidade, quando comparado a objetivo de persistir o mesmo elemento no bioma ou no País. Ambas as escolhas, do alvo e da escala, influenciam fortemente racionalidade envolvida na decisão do órgão e também no diálogo que o órgão ambiental conduzirá com a empresa e com a sociedade.

Resumo: Coleções biológicas se estabelecem como parte fundamental na pesquisa com mamíferos, e no Brasil, a presença de quase uma centena de acervos mastozoológicos nas cinco regiões do país configura um cenário complexo com demandas plurais que requerem constante atenção. O Comitê de Coleções Mastozoológicas da Sociedade Brasileira de Mastozoologia (CCM-SBMz) propõe esta mesa redonda com o objetivo de fomentar discussões e aproximar-se das diferentes realidades e demandas de curadoria, pesquisa com espécimes e em especial propondo discutir o estado atual, a permanência e o futuro das coleções de mamíferos no cenário brasileiro. Inicialmente, a primeira fala abordará o panorama geral brasileiro de coleções levantando pontos importantes de idiossincrasias geográficas. Em seguida, a segunda palestra discorrerá sobre os desafios para permanência e continuidade de coleções mastozoológicas, em especial, para coleções regionais e locais, que são grande parte das coleções do Brasil e que no geral não possuem um aparato institucional mantenedor. Após isso, a convidada tratará sobre o panorama da digitalização de acervos e como o SiBBr contribui e influencia para que o acesso ao patrimônio de coleções biológicas seja normatizado. A última fala, tratará das perspectivas futuras para curadoria, estudo de espécimes, mas também de estratégias para fortalecimento de coleções de mamíferos em um futuro próximo da comunicação, colaboratividade e tecnologia. Por fim, durante o debate mesa redonda, espera-se ter uma discussão aberta com os participantes para traçar as demandas e metas futuras para o CCM-SBMz, visando o fortalecimento deste, das das coleções e de seu papel perante a comunidade.
 

"Megadiversidade engavetada: o panorama das Coleções de Mamíferos no Brasil"
Palestrante e coordenadora: Elisandra Chiquito
Resumo: Coleções biológicas são repositórios de biodiversidade fundamentais tanto para pesquisas científicas em distintas áreas do conhecimento, quanto para atividades educativas e de extensão. O Comitê de Coleções Mastozoológicas da SBMz realizou um primeiro esforço a fim de levantar informações acerca dos acervos brasileiros em 2021, fornecendo um panorama inédito em diferentes aspectos. Desde então, tem havido interesses em diversas frentes no sentido de fortalecer os acervos biológicos, gerando dados que poderão ser utilizados na formulação de políticas públicas. Nesse sentido, o objetivo central desta palestra é fazer uma comparação entre o cenário de 2021 e o atual no que diz respeito aos acervos mastozoológicos brasileiros, bem como trazer à luz potenciais idiossincrasias no que concerne a aspectos geográficos e institucionais. Além disso, é intuito propagar as diferentes iniciativas de fortalecimento das coleções biológicas brasileiras, a fim de levantar discussões e fomentar a participação da comunidade científica para elaboração de propostas específicas para as coleções de mamíferos.

"Desafios para a continuidade de coleções regionais na perspectiva das coleções de mamíferos do Sul do Brasil"
Palestrante: Sergio Althoff
Resumo: Durante a coleta de dados realizada pelo CCM-SMBz, apenas quinze coleções foram registradas na região Sul do Brasil, 62% apenas da expectativa, ainda menor que o cenário nacional (71 registros de uma expectativa de 100 acervos). Essa ausência de resposta ao senso do CCM-SBMz pode denotar uma gama de adversidades enfrentadas por esses acervos, como desde a incompletude do endereço até a não mais existência da coleção. É sabido que alguns acervos dessa região foram extintos e ou permaneceram por um longo período de tempo sem recursos humanos na função de curadoria ou gerência de coleções, o que resulta em sua inacessibilidade ou ainda, perda permanente de informação. Esse cenário existe tanto em instituições privadas quanto públicas. Nesse sentido, esta fala tem por objetivo pontuar e discutir as diversas situações que acometem as coleções científicas, neste caso as de mamíferos, na região Sul a fim de começarmos a pensar e difundir práticas que sejam profícuas à manutenção e incremento dos acervos e da pesquisa em mastozoologia. Com frequência, as reuniões científicas que abordam o tema enfatizam a importância das coleções científicas, mas será que estamos atingindo o público tomador de decisões? No momento atual, internacionalmente, se discute a necessidade investir em manutenção, mas pouco se fala sobre incremento destas. Esse pode ser o momento de a comunidade passar a conhecer e se orgulhar da biodiversidade representada nas coleções, principalmente de âmbito regional, e quem sabe as mídias digitais sejam ainda aliadas para o alcance dos objetivos. Façamos nós este futuro.

"Acervos digitais: acesso e visibilidade às coleções mastozoológicas"
Palestrante: Keila Juarez
Resumo: Como testemunho da composição das espécies ao longo do tempo e do espaço, as coleções científicas são fundamentais para subsidiar as pesquisas nas áreas biológicas (sistemática, ecologia, etc.) como também nas áreas de saúde, agricultura, gestão ambiental e indústria. No entanto, tradicionalmente, o acesso às coleções sempre esteve limitado à localização geográfica da instituição, como também à sua infraestrutura física e de pessoal, uma vez que a própria manipulação dos exemplares requer supervisão para evitar danos ao material. Atualmente, a existência de acervos digitais tem possibilitado um acesso irrestrito aos dados e informações das coleções, contribuindo para a ciência aberta. Apesar da publicação de dados em plataformas digitais ter crescido nas últimas décadas, ainda são poucas as coleções mastozoológicas que publicam dados. Cerca de 25 coleções mastozoológicas estão registradas no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira – SiBBr, mas apenas sete publicam dados, sendo que a maior parte dessas coleções disponibilizam menos de uma centena de registros. Por outro lado, uma única coleção contribui com mais de 85% dos registros de mamíferos de coleções no SiBBr. Infelizmente, são diversos os fatores que limitam a publicação de dados abertos, passando pela falta de equipamentos à ausência de capacitação para a digitalização e padronização de dados. Além disso, muitos curadores ainda resistem em disponibilizar os dados das coleções para uso por terceiros. Uma realidade que precisa ser mudada, já que os acervos digitais alavancam a pesquisa, promovem a ciência aberta e contribuem para a valorização e sustentabilidade das coleções mastozoológicas.

"Coleções de mamíferos de um futuro que não demora: tecnologia brasileira, colaboratividade e popularização"
Palestrante: Heitor Bissoli-Silva
Resumo: A importância das coleções biológicas acompanha o desenvolvimento tecnológico, que cresce desenfreadamente e oferece possibilidades cada vez mais complexas para a investigação dos acervos. Ao mesmo tempo, tecnologias possibilitam a projeção de maior longevidade às coleções, além de trazer facilitadores curatoriais. Na mastozoologia, coleções espalhadas pelo Brasil compõem um cenário complexo acervos, e são repositório essencial da pesquisa sobre a biodiversidade nacional, com séries coletadas em lugares completamente urbanizados na atualidade. Já estamos no futuro? Nesse futuro, coleções brasileiras de mamíferos possuem garantias de continuidade? A vasta quantidade de coleções de mamíferos enfrentam diferentes realidades no Brasil e se desafiam a alcançar o desenvolvimento tecnológico dentro de suas práticas. Entretanto, para a grande parte, a disposição orçamentária ainda é um fator limitante para as práticas mais essenciais. Nessa palestra, além de discorrer sobre as novas possibilidades tecnológicas, será provocada também a necessidade de reconhecer a capacidade de articular políticas e parcerias entre instituições de forma local e global como uma das mais fortes tecnologias brasileiras. Serão apresentados os centros emergentes de referência de coleções no Brasil de forma a instigar a discussão de como podemos construir redes de colaboração que tornem coleções brasileiras auto-sustentáveis, dentro de realidades locais. Para além, teriam os grandes museus internacionais algo a contribuir com nossas instituições? Por fim, será pontuado o papel da ciência cidadã e da aproximação da pesquisa da população, para a visibilidade do trabalho do pesquisador e participação da população no crescimento e cuidado com as coleções.

Resumo: No Antropoceno, as invasões biológicas atingiram um nível sem precedentes e o número de introduções e/ou distribuição geográfica de espécies invasoras aumenta em um mundo em constante mudança. Apesar dos avanços na Ecologia da Invasão, persistem debates e lacunas de conhecimento significativas no que tange aos fatores determinantes do sucesso das espécies introduzidas, da magnitude e dimensões do seu impacto nos ecossistemas naturais, dos mecanismos que sustentam as invasões e as abordagens de manejo das espécies invasoras. No Brasil, existem atualmente cerca de 10 espécies de mamíferos invasores. O javali (Sus scrofa), o cão doméstico (Canis lupus familiaris) e a lebre europeia (Lepus europaeus) estão entre as espécies com maior número de registros de ocorrência e/ou expansão de distribuição geográfica no país. Nesta mesa-redonda, trataremos o tema das espécies invasoras inicialmente de maneira abrangente, identificando lacunas importantes, contextualizando o tema abordado e traçando um panorama geral dos mamíferos invasores no Brasil (Dra. Natalie Olifiers). A mesa-redonda seguirá com um enfoque em mamíferos invasores importantes no Brasil, trazendo informações acerca do estado da arte sobre invasões por javalis (Dra. Clarissa da Rosa), cães domésticos (Dra. Rita Bianchi) e lebres europeias (Dr. Nielson Pasqualotto). Os palestrantes enriquecerão o debate apresentando resultados de suas pesquisas nos últimos anos. A mesa-redonda seguirá com a participação do público, concluindo-se com discussão sobre as lacunas e desafios para o monitoramento e manejo de mamíferos exóticos/invasores no país.
 

"Mamíferos exóticos invasores: estado da arte, importância e desafios no Brasil e no mundo"
Palestrante e coordenadora: Natalie Olifiers
Resumo: As espécies exóticas invasoras são um dos maiores desafios à conservação da biodiversidade no Antropoceno. Acompanhando as diversas ações humanas e as alterações de hábitats nativos, elas estão presentes em praticamente todos os biomas do planeta. Muitas espécies de mamíferos são consideradas invasoras, e muitas outras espécies nativas de mamíferos são afetadas por invasões biológicas. No Brasil, existem cerca de 10 espécies de mamíferos invasores, com populações estabelecidas. Nesta palestra, tratarei do tema das espécies de mamíferos exóticos invasores de maneira inicialmente abrangente, contextualizando o problema primeiramente em escala global e, em seguida, focando no estado da arte e desafios em nosso território. Ao longo da palestra, a título de ilustração, serão apresentados os resultados obtidos com projeto de levantamento de cães domésticos em Unidades de Conservação dos biomas Cerrado e Mata Atlântica.

"O cão doméstico como espécie invasora: a importância de uma abordagem multidisciplinar na proposição de medidas mitigadoras"
Palestrante: Rita de Cassia Bianchi
Resumo: O cão-doméstico se distingue das demais espécies exóticas invasoras por uma série de fatores, destacando-se a longa relação estabelecida com os seres humanos ao longo de mais de 15 mil anos. Diante disso, a implementação de políticas públicas voltadas para mitigar os impactos causados por cães na fauna nativa requer uma abordagem abrangente, que considere tanto os aspectos ecológicos quanto os sociais associados à sua presença, especialmente em áreas protegidas. Nesse contexto, apresentarei um estudo de caso que abrange a coleta de dados ecológicos, sanitários e sociais no entorno de uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, onde cães rurais de vida livre são monitorados por meio de tecnologia GPS. Nesta palestra, aprofundaremos a nossa compreensão sobre os aspectos ecológicos fundamentais dos cães, incluindo sua área de vida e dieta. Além disso, buscaremos analisar em que medida os cuidados oferecidos a esses animais podem influenciar o tempo de ocupação de áreas de vegetação nativa e a potencial invasão da área protegida mais próxima, dessa maneira adotando uma abordagem multidisciplinar na proposição de medidas mitigadoras.

"O problema javali: experiências de controle de uma espécie invasora na Mata Atlântica e no Cerrado"
Palestrante: Clarissa Alves da Rosa
Resumo: A espécie Sus scrofa, conhecida como javali ou javaporco, é nativa da Europa, Ásia e norte da África, e é uma das 100 piores espécies invasoras do mundo. Nos últimos 10 anos a invasão dessa espécie tomou proporções alarmantes no Brasil, invadindo todos os biomas do país, principalmente a Mata Atlântica e o Cerrado. Nesse sentido, trago experiências de controle da espécie em três Unidades de Conservação, duas localizadas na Mata Atlântica, onde as ações de controle foram iniciadas em um momento onde a invasão estava em níveis descontrolados, sendo necessário a aplicação direta e contínua de atividades de controle e abate; e outra no Cerrado, onde a invasão foi detectada nos seus estágios iniciais, tendo sobretudo como foco ações de prevenção da invasão da espécie. Com isso é possível trazer o contraponto entre as ações necessárias nos diferentes estágios de invasão, inclusive mostrando a importância da detecção precoce no controle de espécies invasoras.

"A invasão da lebre europeia no sudeste do Brasil: a causa de mudanças ecológicas ou apenas um passageiro das alterações antrópicas?"
Palestrante: Nielson Pasqualotto
Resumo: A invasão de espécies exóticas é um grande impulsionador da perda de biodiversidade no mundo. Espécies exóticas invasoras promovem extinções por meio de diversos mecanismos ecológicos, tais como competição, predação, transmissão de doenças, etc. No entanto, algumas espécies exóticas invadem ecossistemas e se tornam dominantes sem interagir intensamente com a comunidade nativa. Na América do Sul, a lebre europeia (Lepus europaeus) foi introduzida no final do século XIX na Argentina e Chile e expandiu rapidamente sua distribuição para o norte, chegando ao sudeste do Brasil na última década. Em minha palestra, vou apresentar os principais resultados dos estudos que liderei investigando o sucesso de invasão da lebre europeia (Lepus europaeus) no sudeste do Brasil. Apesar da lebre europeia ser frequentemente reconhecida como uma ameaça às comunidades nativas por ela invadida, encontrei poucas evidências de que o mesmo esteja acontecendo no sudeste do Brasil. Os principais achados que obtive são mais consistentes com a hipótese de que a lebre é apenas um passageiros pegando carona nas alterações antrópicas. Apresentarei como minhas descobertas ajudam a prever o futuro desse processo de invasão na América do Sul, ao mesmo tempo em que lançam luz sobre o potencial de interação competitiva da lebre com o tapeti (Sylvilagus minensis).